Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Quarta-Feira, 20 de Novembro de 2019
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Publicado em 21/10/19, às 10:24

‘Bicho pegou’

Por Roberto Marinho

No mesmo dia em que comemoravam o sucesso de uma operação contra o tráfico de drogas no ‘Minha Casa, Minha Vida’ do Santa Cruz, realizada na quinta, 17, os Policiais Militares do Batalhão do Aço tiveram que lidar com uma bomba: oito policiais da corporação, além do ex-PM e atual vereador Sidney Dinho, estavam sendo denunciados pelo Ministério Público do Estado do Rio como suspeitos dos crimes de associação criminosa e corrupção passiva.
Os mandados de busca e apreensão nos endereços dos PMs e do parlamentar foram cumpridos por agentes do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ), com o auxílio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MPRJ) em parceria com a Corregedoria da Polícia Militar. O MP também conseguiu afastar os oito policiais da ativa, retirando-os de suas funções por determinação da Auditoria de Justiça Militar. Além das acusações de associação criminosa e corrupção passiva, Dinho está sendo acusado de extorsão.
De acordo com o MP, as denúncias foram originadas depois das operações Katitula (2016) e Camará (2017), ambas realizadas pela Polícia Federal em parceria com o Gaeco. As operações apuraram denúncias de associação para o tráfico de drogas em Volta Redonda, além de outras cidades da região, das facções criminosas Comando Vermelho e Terceiro Comando. Ainda segundo o MP, as investigações mostraram que os traficantes estariam pagando propina a policiais do 28o Batalhão para que o tráfico não fosse reprimido.
Com a interceptação de diálogos de voz e mensagens de SMS, a PF descobriu que o policial militar Flávio Henrique Ferreira Moreira teria negociado o pagamento da propina com os traficantes da região. Segundo a denúncia, Dinho, além de receber propina para “deixar de praticar atos de ofício” – ou seja, não reprimir o tráfico – ainda teria ameaçado traficantes com arma para que eles pagassem propina.
O MP também denunciou os PMs André da Silva Lamblet e Rodrigo da Silva Theodoro por, supostamente, terem recebido propina para não reprimir o tráfico de drogas e o comércio irregular de medicamentos no Mercado Popular de Barra Mansa. Já Luciano Barbosa da Silva, Caio Marcos Silva Nogueira e Ronaldo Marino Venâncio Xavier teriam recebido propina para não efetuar a prisão de Nahum Machado Teixeira, que ao ser abordado estaria portando armas de grosso calibre, entorpecentes e outros objetos relacionados a atividades ilícitas. Quanto aos PMs Alexandre de Oliveira e Márcio Oliveira Carneiro, eles foram denunciados por, em teoria, fazer parte de um grupo, denominado “C-20”, que teria se associado a comerciantes do Mercado Popular de Barra Mansa para não reprimir a venda de medicamentos sem registro no mercado.
Dinho se defende
O vereador Sidney Dinho (Patriotas), parlamentar desde 2013, ex-presidente da Câmara em 2017 e pré-candidato a prefeito em 2020, não deixou por menos. Em entrevista ao programa de Betinho Albertassi, na Rádio 88 FM, Dinho disparou contra tudo e contra todos ao desmentir os boatos de que estaria preso. Seus primeiros tiros foram contra a postura da imprensa local, que não o teria procurado para falar sobre o assunto.
Ele estava irritado, principalmente, com um radialista que chegou a anunciar que ele estaria preso. Coube ao vereador ligar para a rádio e avisar que, na verdade, ele estava indo com seus advogados até a sede da Justiça Militar no Rio de Janeiro. Foi o suficiente para que o radialista voltasse ao ar para corrigir a informação, desculpando-se com os ouvintes e com o próprio parlamentar. “Só duas pessoas da mídia local – você (Betinho) e outro jornalista, de um veículo impresso (do aQui) – me procuraram. Quero agradecer porque quando acontece alguma coisa desse tipo é muito fácil jogar pedra nas pessoas. Não nos dão oportunidade para falar sobre o que realmente está acontecendo”, pontuou Dinho.
Em outro ponto da entrevista, Dinho criticou a manchete de um diário da região que o apontou como um dos suspeitos, e ainda a reportagem, ao vivo, de uma emissora de TV, foi filmada em frente à sede do Ministério Público. Para Dinho, o repórter teria se empolgado. “Acho que ele queria ser policial ou integrante do Ministério Público”, disparou, dizendo que o mesmo teria usado termos que fizeram a mãe dele, de 75 anos e hipertensa, passar mal.
“Antes de ir ao Rio eu passei na casa da minha mãe, expliquei que estava indo com os advogados, despachar com o juiz, tudo certo. Mas quando ela assistiu aquilo na TV, passou mal, deu a maior correria e eu no Rio sem poder fazer nada para ajudar. Isso chateia muito”, avaliou o vereador.
Sobre a investigação do Ministério Público, Dinho afirmou que vai cumprir todas as etapas e decisões da Justiça, “para esclarecer tudo o mais breve e melhor possível”. “Fui alvo de um mandado de busca e apreensão na minha casa, não tenho vergonha de falar isso. A Corregedoria da Polícia Militar, junto com representantes do Ministério Público, estiveram na minha residência, e fizeram o trabalho deles, que eu respeito. A Justiça, quando entende que há alguma coisa, faz a parte dela, e eu respeito isso”, disse Dinho, que acrescentou: “Respeito o entendimento que o Ministério Público tem, e vou fazer a minha parte”.
Perguntado diretamente, Dinho afirmou que “nunca” recebeu dinheiro de traficantes, nos 25 anos em que esteve na Polícia Militar, e disse que vai exercer o seu direito de defesa. “O Direito brasileiro é objetivo; é um mundo de alegações e provas, e de ampla defesa. Agora é mostrar por A mais B que aquilo que está escrito, o que foi divulgado não é o espelho da verdade no nosso entendimento”, pontuou, acrescentando que “o ônus da prova cabe a quem acusa (ao MP, grifo nosso)”.
Com relação às ligações telefônicas interceptadas pela PF, entre ele, Dinho, e um dos suspeitos investigados nas operações Katitula e Camará, o vereador afirmou que conheceu o homem na igreja que ambos frequentavam. “Existem diálogos meus com um alvo dessa operação, que é o marido da filha do pastor da igreja que eu frequentava. Eu falava com ele normalmente, como falo com qualquer um”, argumentou Dinho, que levantou suspeita de que poderia haver algum objetivo político por trás das denúncias.
“Antes da divulgação da operação, já tinha vereadores com a denúncia do MP na mão. Será que tem cunho político? Os fatos teriam acontecido em 2011. Oito anos depois eu recebo uma busca e apreensão na minha casa? Meu nome já apareceu nas averiguações em 2016, mas eu nunca fui chamado para depor, nada”, salientou, lembrando que chegou a administrar um orçamento milionário quando presidente da Câmara em 2017. “Nunca houve qualquer suspeita de irregularidade e ainda devolvemos R$ 800 mil para a prefeitura”, disse.
Dinho aproveitou para destacar que, apesar da juíza que conduz o caso ter colocado algumas restrições que ele não especificou, vai continuar exercendo a vereança. “Tenho um compromisso com a população de Volta Redonda”, disse, garantindo que recebeu inúmeras mensagens de apoio. “Vamos dar tempo ao tempo”, finalizou.

Gângsters

Policiais Civis da 93° DP, de Volta Redonda, coordenados pelo delegado Wellington Vieira, e pelo adjunto, Rodolfo Atala, realizaram na manhã de quarta, 16, uma mega operação para prender supostos integrantes de uma organização criminosa, que seria especializada em praticar fraudes no financiamento de veículos, além de lavagem de dinheiro. A operação foi batizada de ‘Gângsters’ e culminou com a prisão de sete pessoas de Volta Redonda e Barra Mansa, além do sequestro de diversos automóveis e bloqueio de contas bancárias dos indiciados, que chegariam ao valor de R$ 7 milhões.
Um dos supostos líderes da operação, Jardel Bartolini de Faria Resende, morador do Jardim Amália, foi operador de um tradicional banco privado, e segundo a acusação, teria conhecimento dos trâmites na aprovação e liberação de créditos referentes a financiamentos de automóveis.
Na operação, um veículo furtado, que estava sendo usado por um Policial Militar, que sabia que o carro tinha restrições, foi apreendido. O PM foi indicado por receptação, e os demais foram indiciados por organização criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro. As penas podem chegar a 60 anos de prisão.
Além de Jardel Bartolini de Faria Resende, foram presos: Jordã Bartolini de Faria Resende; Bruno da Silva Peres; Marcelo de Carvalho Oliveira; Adriano Moura Porto;  Augusto Cesar Ribeiro Lemos e Natan Silva de Assis.

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