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Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
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Publicado em 27/11/17, às 09:04

Benção ou maldição?

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Vinicius de Oliveira

Historicamente, a educação brasileira sempre privilegiou os mais abastados, atribuindo à grande massa populacional uma educação falha cheia de problemas. Era comum, por exemplo, encontrar dúzias de alunos espremidos em salas de aulas, sentados em cadeiras enfileiradas de frente para um professor, com uma lousa verde ao fundo onde ‘o mestre’ escreveria, usando um giz branco, as matérias, teses e deveres. A triste realidade, encontrada até pouco tempo em quase todas as escolas públicas brasileiras, cujo sistema de ensino perdura desde o século passado, pode estar com os dias contados.

 

A opinião é defendida por pesquisadores que entendem que a realidade descrita acima é ultrapassada e desmotiva os alunos. Uma solução possível, para eles, é a chamada Educação à Distância (EAD), vista como modelo de educação do futuro. Tanto pode ser que pesquisas mostram o crescimento dos cursos à distância pelo país. De acordo com os dados do Censo da Educação Superior de 2012, a EAD cresceu mais que a educação presencial entre 2011 e 2012. Nesse período, houve crescimento de 12,2% nas matrículas dos cursinhos à distância, porcentagem bem superior ao aumento de 3,1% da educação presencial. No entanto, menos de 15% dos universitários brasileiros estão fazendo os cursos de EAD.

 

De acordo com o mesmo senso, apenas 14,6% dos jovens brasileiros, entre 18 e 24 anos, frequentam o ensino superior, enquanto que Argentina, Chile e Bolívia possuem taxas que superam os 30%. Tais dados evidenciam o grande número de jovens em idade produtiva com baixo nível de escolaridade. Diante da falta de recursos para estimular o acesso ao Ensino Superior, inclusive por meio de programas como o Fies (Financiamento Estudantil) e ProUni (Programa Universidade Para Todos), o Ministério da Educação publicou a portaria número 11, que estimula o aumento da oferta de programas de graduação na modalidade à distância. É justamente aí que mora o perigo.

 

Um ponto importante da portaria passa quase despercebido. É o artigo 8º, que permite às empresas utilizar suas instalações como polos de apoio à educação. Dessa forma, corretoras de seguros, imobiliárias, escritórios de contabilidade e outros podem sediar cursos de graduação à distância que interessem a seus colaboradores. Em outras palavras, o que veio para democratizar o ensino superior brasileiro pode significar um crescimento desordenado, carente de fiscalização. O resultado pode ser previsível: vão formar profissionais despreparados, sem o embasamento teórico necessário.

 

Quem faz a denúncia é o presidente da Fundação de Apoio a Tecnologia (FAT), Cesar Silva. Para ele, investidores oportunistas buscarão imóveis a fim de torná-los polos EAD sem qualquer preocupação com o ensino. “Dessa forma, as IESs continuarão a ofertar seus planos de expansão de EAD com base na remuneração decorrente do volume de alunos matriculados, nada diferente do que fizeram até agora e que resultou em péssimos índices de aproveitamento e eficiência das instalações”, pontuou.

 

Na cidade do aço, os riscos de encontrar uma instituição mal intencionada são grandes. Cientes da ajuda financeira paga pela prefeitura ao servidor que cursa faculdade particular (gira em torno de R$ 300), representantes de faculdades particulares aparecem de todos os cantos do Brasil oferecendo cursos de graduação e pós-graduação com facilidades irrecusáveis, a começar pelos preços das mensalidades. O funcionário, vislumbrado com o dinheiro extra que pode receber, e de olho no badalado Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), acaba se matriculando em um desses cursos sem se preocupar com a qualidade do ensino, de olho apenas no diploma e na gratificação, se for funcionário público.

 

Para o mestre em Administração Pública Daniel Neto Francisco, tutor do Cederj, polo Volta Redonda, o interessado nesse tipo de sistema educacional à distância deve ficar atento, pois, de acordo com ele, não são poucos os profissionais que concluem cursos na modalidade com o mínimo de embasamento teórico e nada de conhecimento prático. “O que se nota é uma desregulamentação nas estruturas curriculares e nos pressupostos básicos para a formação de centros de ensino, de cursos de graduação e até mesmo no campo das pós-graduações lato sensu. Existem poucas regras por parte do Ministério da Educação no estabelecimento de uma plataforma mínima para que dados exageros não ocorram”, analisou.

 

Neto vai além. Diz que ‘promover a “materialização do saber” não é um caminho feito copiando saberes já existentes. “A qualidade do ensino é um objeto difícil de se mensurar, pois envolve diversas questões que o curso à distância tem que ser capaz de abrigar. É complicado colocarmos padrões numéricos ou mensurar a qualidade do ensino com base em ‘indicadores insumo’ como número de aulas presenciais, horas em laboratórios, aulas práticas, ou outras ferramentas”, avaliou, frisando que se faz necessária a constante cobrança do MEC. “É claro que estipular uma quantidade mínima destas ferramentas é fundamental e o Ministério da Educação deveria promover uma melhor fiscalização destas questões básicas”, defende. 

 

Vantagens e desvantagens

O ensino à distância surgiu em decorrência da necessidade social de proporcionar educação aos segmentos da população que foram excluídos pelo sistema e a EAD pode ter um papel complementar ou paralelo aos programas do sistema presencial. Por vezes, representa a única oportunidade de estudos oferecida a adultos engajados na força de trabalho e às donas de casa, que não podem deixar crianças e outras obrigações familiares para frequentarem cursos totalmente presenciais, que requerem frequência obrigatória e cujos professores nem sempre estão preparados para atender às necessidades do estudante adulto.

 

Para os especialistas, estudar à distância pode desenvolver no aluno competências como foco, disciplina, responsabilidade e até liderança. Mas tantas instituições oferecendo EAD de forma desgovernada, feito pipoca explodindo na panela quente, pode convergir numa armadilha perigosa. Muitos devem se lembrar ou, pelo menos, ter lido nos livros de histórias sobre o Movimento Brasil Alfabetizado, o Mobral, sistema criado pelos militares para difundir conceitos que permeavam o golpe, sob o pretexto de alfabetizar jovens e adultos que não podiam frequentar a escola no tempo certo. A falta do preparo adequado dos professores, somada ao oportunismo político da época, resultou em centenas de analfabetos funcionais.

 

Para evitar armadilhas como o Mobral, o tutor do Cederj, Daniel Neto Francisco, aconselha que os interessados em cursos à distância procurem uma instituição cuja filosofia não seja voltada para conceitos mercadológicos, mas sim ao aprendizado crítico e que dinamize as teorias vistas em “sala” com as questões e problemáticas vivenciadas em sua vida, em seu município, em sua empresa. “É necessário transbordar as questões vistas nos livros e conseguir trazer isto para a vida real. No campo da Administração Pública, por exemplo, muito pouco adianta um aluno decorar os eixos da política de governo eletrônico. Esse saber se torna relevante quando o aluno é capaz de identificar uma ferramenta de governo eletrônico e avaliar, por exemplo, a qualidade do site da nossa cidade”, criticou.

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