Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 23 de Abril de 2019
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Publicado em 15/04/19, às 09:58

‘Barranco caiu na cidade inteira’

“Em duas horas foram registrados 107 mm de chuvas”, sentenciou o prefeito Rodrigo Drable, referindo-se ao temporal que atingiu Barra Mansa na noite de domingo, 7. E a cidade sofreu. “Todos os bairros foram afetados, eu nunca vi um negócio desse na minha vida. Não é uma eventualidade ou chuva localizada não, barranco caiu na cidade inteira. Tem bairros que não tínhamos histórico de alagamento e alagaram. O volume de água foi algo fora do padrão. Vejam só: foram 70 milímetros na chuva do dia 17 (de 2010) e 120 na de domingo”, comparou. “Foi uma catástrofe, e ela não ocorreu em uma área localizada. Foi na cidade inteira”, comparou.
A preocupação de Rodrigo era tanta na manhã de segunda, 8, que ele deu várias entrevistas às rádios locais e, em todas elas, fez questão de alertar a popula-ção e, ao mesmo, fazer um pedido. “A expectativa de chuva é muito grande, então eu faço um apelo aos moradores: evitem sair de casa, principalmente naquele horário de 17 e 18 horas. É importante que as pessoas evitem sair de casa”, repetia.
Ele tinha razão. Só errou o horário, pois a chuva voltou a atingir os bairros de Barra Mansa na madrugada de terça, 9. O temporal, segundo ele, provocou o desabamento de uma residência no bairro São Sebastião, na Rua Milton Mariano, altura do número 599. Os escombros atingiram ainda outras duas casas na Rua Santina Pereira de Melo, sendo que um homem, com ferimentos leves, foi encaminhado para a Santa Casa de Misericórdia. Como medida de prevenção, outras seis casas foram desocupadas na localidade”, contou.
“Diversos pontos sofreram alagamentos e/ou deslizamentos, como na Santa Clara, Colônia Santo Antônio, Ano Bom, Vila Orlandélia, Getúlio Vargas, São Francisco, Santa Isabel, Centro, São Judas, Paraíso, Boa Vista, Vila Elmira, Nove de Abril e outros bairros da Região Leste”, listou Rodrigo.
O Rio Barra Mansa, que na segunda tinha atingido 5.08 metros de altura, já na terça, 9, trans-bordou, provocando inundação de casas no Nova Esperança e no São Luiz. Rodrigo chegou a usar, seguidamente, as redes sociais pedindo que a população não saísse de casa. Além de registros de queda de árvores, algumas escolas tiveram as aulas suspensas, com o alaga-mento das salas de aula. Entre elas, a Argemiro de Paula Coutinho, no São Luiz; Clécio Penedo, no Nova Esperança; Nono Reis, no São Judas; Nove de Abril e Vila Elmira, ambas na Região Leste e Alderando Casalli Marques, no Santa Izabel. A Creche Padre Adalberto, no São Luiz, também ficou sem aulas.
O trânsito entre Volta Redonda e Barra Mansa, pela Via Sérgio Braga, ficou interditado da madrugada de domingo,7, até a tarde de quinta, 11, quando a movimentação dos veículos foi restabelecida. A inter-dição da principal ligação entre as duas cidades provocou o caos e o acesso dos motoristas a uma das cidades só podia ser feito pela margem esquerda da Avenida Beira-Rio, cujo asfalto terá que ser todo trocado assim que for possível. A limpeza da via era tão importante e urgente que o próprio prefeito calçou botas e pegou na enxada para ajudar os soldados do Tiro de Guerra na missão de tirar a lama da rodovia.
“Pontos que nunca alagaram na história de Barra Mansa alagaram de forma grave dessa vez”, comparou Rodrigo em entrevista a Dário de Paula, onde lamentou a cultura do brasileiro diante dos problemas da cidade onde mora. “Nós temos aquele problema cultural, social, de lixo na calçada que as águas levam. Isso vai obstruindo todas as redes de drenagem que a gente tem pela cidade e vai agravando o problema. Pontos que nunca alagaram na história alagaram de forma grave dessa vez, pois o volume de água foi muito grande com pouca drenagem”, avaliou.
Ainda comparando o temporal de 2019 com o de 2010, Rodrigo Drable usou uma metáfora para exemplificar o que ocorreu no domingo, 7. “Em 2010, foi um encontro de causas: a chuva, o Rio Paraíba muito cheio e ainda uma tromba d’água na área de Antônio Rocha. Os rios não encontravam vazão para o Paraíba. Agora foi a excepcionalidade de uma chuva que jogou um lençol de 120mm de água na cidade inteira. Imagine um lençol cobrindo a cidade inteira, os morros, os prédios, tudo. E isso foi canalizado pros pontos mais baixos, foi encontrando água acumulada de outros pontos e ela não tinha pra onde ir”.
Ele vai além. “Literal-mente não tem pra onde (água) ir porque é um volume que não tem dimensionamento. Você dimensiona uma rede de drenagem para cerca de 25mm, e isso é a carga máxima que se estima de chuva para uma cidade do modelo de Barra Mansa Só que choveu 120 mm. Entulho na calçada e lixo na porta da casa em uma chuva dessas, tudo é levado para os pontos de drenagem, e eles vão entupir. Não tem serviço no mundo que resolva isso”, avaliou.
Coube a Rodrigo, entretanto, apontar uma saída. Drástica, por sinal, e que envolve uma parceria com Samuca, prefeito de Volta Redonda “Eu conversei com o Samuca sobre isso e lhe disse que se nós não promovermos uma ação de repressão de entulho na calçada, a vazadouro de lixos, vamos ter esse problema agravado a cada dia”, pontuou. “Temos que ter a consciência da população, mas não tendo essa cons-ciência, o Poder Público vai ter que atuar de forma re-pressiva para que ninguém mais deixe entulho na calçada”, sentenciou.
“As pessoas não avaliam a consequência disso. Em dia de seca, coloca na calçada, a prefeitura vem e recolhe, mas quando vem uma chuva dessas, a tragédia que tá causando é em boa parte por nós não termos a capacidade de vazão porque (os bueiros) ficam entupidos. Eles não entopem com o vento, entopem com o lixo, com o entulho. A ação humana é que está prejudicando o próprio ser humano. Se nós não tivermos essa consciência ou não tivermos a capacidade de impor que não se façam ações que prejudiquem a coletividade, as coisas tendem a piorar”, disparou.
A postura crítica de Rodrigo pode não ser entendida por alguns, mas deveria. “Graças a Deus não houve uma fatalidade, mas não podemos esperar de braços cruzados isso acontecer. Então (que os moradores) não voltem para as casas interditadas, ajudem em não permitir que os vizinhos entrem porque vão expor suas vidas”, pediu. “Eu quero ressaltar que nós não somos ilhas; Barra Mansa e Volta Redonda são cidades irmanadas, que têm que se apoiar duplamente”, contou.
Para Rodrigo, a união das duas cidades tem que ser prática, acima de tudo. “Eu conversei com o Samuca porque se houver uma necessidade de salvar uma vida em Volta Redonda, eu vou parar tudo que estou fazendo em Barra Mansa para atender Volta Redonda. E eu conto com o apoio de Volta Redonda no caso inverso. Em caso de tragédia em que Barra Mansa precise de apoio que ela seja ampa-rada por Volta Redonda. Essa relação mútua de apoio está acontecendo”, ressaltou. “Quero agradecer ao prefeito Samuca, que tem sido solícito nas nossas necessidades, e quero me colocar à disposição para a população de Volta Redonda para quando for necessário trabalharmos juntos”, completou

Balanço
A Região Leste de Barra Mansa foi uma das áreas mais afetadas pelas chuvas e cerca de 40 mil moradores foram prejudicados. Os maiores problemas foram casas alagadas, cheias de córregos, queda de encostas, entupimento de galeria de águas pluviais e muita lama nas vias públicas. Para minimizar os estragos, a subprefeitura passou a atuar com todo o seu efetivo na limpeza e desobstrução das ruas, usando, inclusive, um caminhão para recolher móveis e colchões danificados pela força das águas.
Segundo o subprefeito, Marco Chiesse, tudo será encaminhado para a sede do CTR (Centro de Tratamento de Resíduo), no Km 4. “Em reunião com o prefeito Rodrigo Drable, traçamos estratégias para enfrentar esse momento tão com-plicado. Estamos atentos e vamos atender a todas as demandas da população. Neste momento, pedimos a compreensão e colaboração de cada um, pois entendemos que a união e a solidariedade é que fazem a diferença para enfrentar problemas como esses”, ressaltou.
O subprefeito destacou algumas situações em que seria preciso atuar com urgência. “Equipes da prefeitura estão trabalhando intensamente na retirada do barro que desceu das encostas, como por exemplo, nas Ruas 2 e 8 da Morada da Granja, e nas ruas João Ferreira Batista da Luz e Alphen de Oliveira Ferreira, no Metalúrgico. As vias ficaram completamente alagadas, impedindo o fluxo de pedestres e prejudicando o tráfego de veículos. Na Rua Ary Barroso, na Mangueira, as residências foram inun-dadas pelo transborda-mento do Córrego Secades”, enumerou, lembrando que uma das situações de maior gravidade está na Rua Nilton Mariano com Rua Santina de Melo, onde casas correm o risco de desabar. A Defesa Civil já esteve na localidade e retirou as famílias das residências.
Outras duas residências situadas na Rua Waldomiro Perez Gonçalves, no Paraíso de Cima, tiveram parte da parede da cozinha e sala destruídas pelas águas que desceram das encostas. Alguns carros ficaram com água até a altura do volante.  Nesta mesma rua, no número 1.240, houve queda de um muro.
Por medida de segurança, a Rua Dirceu Custódio do Nascimento, no Paraíso, foi parcialmente interditada. No local a queda de uma árvore sobre os fios de alta tensão oferece riscos.

Interdição de 30 casas
Na manhã de quinta, 11, a Defesa Civil de Barra Mansa interditou cerca de 30 casas na Vila Natal, no Paraíso de Cima. Localiza-das no final da Rua 3, os imóveis estão ameaçados em função de rachaduras da encosta. Por isso, o órgão orientou as famílias a deixarem o local, sendo que oito pessoas optaram por procurar o abrigo disponibilizado na Igreja Assembleia de Deus – Ministério Madureira, no Centro. As demais preferiram se instalar na casa de familiares.
Coordenador da Defesa Civil, Sérgio Mendes, disse que o órgão orientou as pessoas sobre os riscos que a situação representa. “Não temos como obrigar as pessoas a deixarem as suas casas, daí a importância dessa tomada de consciência sobre a preservação do bem maior de cada um, que a vida humana”, ressaltou.

Vacinação
A Secretaria de Saúde está aplicando a vacina antitetânica em mora-dores que mantiveram contato com a água das chuvas. Também está sendo realizada a distribuição de cloro para auxiliar na desinfecção das residências.

Fórum
O tráfego de veículos na ponte de acesso ao Fórum de Barra Mansa está sendo feito em meia pista. A passagem para pedestres foi interditada e a secretaria de Manutenção Urbana contratou uma empresa para realizar estudos na estrutura da ponte, visando a sua recuperação.

Abrigos
O prefeito Rodrigo Drable usou as redes sociais para anunciar que um abrigo temporário está funcionando na Igreja Assembleia de Deus Ministério Madureira, no Centro. O espaço tem capacidade de atender as famílias desabrigadas. “Estamos fazendo o nosso melhor para acolher as famílias nesse período de necessidade. Agradeço a igreja, que está abrindo as portas para nos ajudar nesse momento tão difícil”, expressou Rodrigo.

Aulas suspensas
A secretaria de Educação informou que as aulas na Creche Padre Adalberto, no bairro São Luiz e nas Escolas Municipais Argemiro de Paula Coutinho, Nono Reis, Nove de Abril, Vila Elmira e Clécio Penedo, seguem suspensas sem previsão de retorno.

Telefone da GM
Devido aos problemas causados pela forte chuva, a Guarda Municipal de Barra Mansa implantou um novo canal de comunicação através do WhatsApp Durante 24 horas, registros de ocorrências poderão ser realiza-dos através de mensagens pelo aplicativo no número: (24) 98147-9229.

Vila Elmira
Até ontem, sexta, 12, as equipes da Prefeitura de Barra Mansa estavam trabalhando duro para pôr fim ao cenário de devastação na cidade. Dentre as principais ações, a desobstrução das vias que sofreram com o desliza-mento de encostas. E a principal via de acesso ao bairro Vila Elmira, a Rua Manoel José da Silva, foi totalmente desinterditada. Cerca de 50 caminhões de terras foram retirados da localidade. No bairro, além do deslizamento de terra, também houve o desaba-mento de uma residência. 
De acordo com o secretário de Ordem Pública de Barra Mansa, Luiz Furlani, a via voltou a atender o fluxo de trânsito e de pedestres. “Conseguimos remover a barreira que caiu no meio da rua. Durante esses dias, não era possível o acesso ao bairro pela entrada principal. Isso dificultou muito a vida das pessoas que precisavam entrar ou sair da Vila Elmira”, explicou Furlani.

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