Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 18 de Junho de 2019
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Publicado em 27/05/19, às 09:05

Bala na agulha

Por Roberto Marinho

Quem se animou com o decreto do Presidente Jair Bolsonaro liberando a venda e o porte de armas, sonhando talvez em virar um ‘xerife’ dos filmes de cowboy, pode esperar pelo pior. Na única loja autorizada a vender armas na região, a ‘peça’ mais barata não sai por menos de R$ 4 mil. Com documentos oficiais, é claro. A informação é do proprietário da Big Caça e Pesca, Clóvis Cerqueira.
Cerqueira – como é conhecido – é um senhor simpático, de voz calma. Ex-policial militar e civil, que trabalha na loja localizada no centro de Barra Mansa, ao lado da filha Andréia, ele diz que a procura por armas aumentou cerca de 50% desde o anúncio da assinatura do decreto do presidente Jair Bolsonaro liberando a venda do produto. Mas, dos que já estiveram namorando os modelos à venda, nem todos saíram com uma pistola ou revólver na mão. “A vinda de interessados aumentou muito, mas as vendas mesmo só aumentaram 15%”, explicou.
De acordo com Cerqueira, o maior obstáculo é o preço. Não é para menos. O revólver mais simples custa R$ 2,7 mil, e os trâmites necessários para se obter a licença – serviço que a loja também presta – saem por R$ 1,3 mil. “É preciso fazer o teste psicotécnico, um teste de tiro, ter mais de 25 anos, comprovar a efetiva necessidade de ter a arma e não ter nenhum antecedente criminal”, lembra Cerqueira, ressaltando que o exame psicotécnico e o teste de tiro têm que ser feitos por profissionais credenciados pela Polícia Federal.
Segundo Cerqueira, existem profissionais credenciados em Volta Redonda e isso vai facilitar o processo. “Antes, esses testes tinham que ser feitos no Rio, então agora facilitou muito”, disse. Quanto ao teste de tiro, o ex-policial explica que o mesmo serve para verificar se a pessoa sabe manusear uma arma. Caso não saiba, ela será encaminhada a um curso de tiro. Detalhe: só existe um instrutor credenciado na cidade do aço. “Existiam dois instrutores, um em Resende e outro em Quatis, mas agora só há este profissional em Volta Redonda”, alertou.
A escassez destes profissionais, na opinião de Cerqueira, se deve ao fato de os interessados em obter o credenciamento serem obrigados a ir a Brasília fazer testes, o que encarece muito todo o processo. Tem mais. A atividade de venda de armas é fiscalizada diretamente pelo Exército, com fiscalizações periódicas a cada dois ou três meses. E o controle das vendas – de armas e munições – também é restrito, sendo feito por meio de um sistema online, também coordenado pelo Exército, que registra cada venda feita no país inteiro.
“O limite para compra de munições é de 50 unidades por ano, por pessoa. Se a pessoa compra 40 munições em Mato Grosso, e depois quer comprar mais 20 aqui em Barra Mansa, o sistema acusa ‘quantidade excedente’ e a venda não pode ser feita”, explicou, garantindo que achou excessivo o limite de 5 mil munições que será adotado para compra com o novo decreto. “É muito tiro!”, comentou, rindo. Afinal, segundo ele, praticamente ninguém, nem mesmo os atiradores esportivos, utilizam tanta munição.

Novos negócios
Clóvis Cerqueira também afirmou que o novo decreto pode abrir oportunidades de negócios para quem queira lidar com armas, como, por exemplo, estandes de tiro. Atualmente, para se praticar tiro na região sul fluminense, é necessário se filiar a um clube, tendo que pagar anuidade. “Não tem estande de tiro aonde a pessoa vai e paga somente pelo tempo que utilizar, sem ter que entrar de sócio e pagar anuidade. É uma oportunidade”, disse ele, que afirmou não pretender abrir um negócio do tipo. “Primeiro, porque precisa investir um capital, e está todo mundo meio quebrado (risos). Depois, eu estou com idade é para sossegar, e não para arrumar tanto compromisso. Essa loja já me dá bastante trabalho (mais risos)”, argumentou.
Em relação à própria loja, embora evitasse dar detalhes, – “essa parte é meio sigilosa”, disse – Cerqueira afirmou que trabalha com um estoque baixo, basicamente sob encomenda, e que até a localização da loja, nos fundos de uma galeria, é estratégica. “Não me preocupo muito porque aqui vive cheio de gente, a maioria policiais ou gente que sabe atirar. Além disso, pela minha própria experiência como policial, já conheço bandidos. Se colocar a cara no portão, eu sei se é bandido ou não”, garantiu, ressaltando que sua maior preocupação é com incêndios. “Esse tipo de negócio (loja de armas), os bancos não fazem seguro; venho tentando há 25 anos, mas nunca consegui”, explicou.
Cerqueira disse ainda que o forte da loja não é a venda de armas. Segundo ele, o armamento dá pouco lucro, por causa do preço alto e do controle rígido. “Vendemos poucas armas, algo como cinco ou seis por mês. Na verdade, as armas dão pouco lucro, ganhamos muito mais com as outras coisas que vendemos: material de pesca, de camping. Mas com a liberação, se as fábricas baixarem o preço, quem sabe conseguiremos ‘sair do vermelho’”, completa, rindo.

Aumento da violência
Em relação ao possível aumento da violência com a liberação da venda de armas, Cerqueira se mostrou cético, por causa do controle que ainda será exercido sobre os compradores. “Tenho certeza que a violência não vai aumentar, porque quem vai comprar tem que ser uma pessoa idônea. Além disso, terá que passar por vários processos de controle. Eu já tive casos – inclusive um foi na semana passada – de pessoas que passaram por todo o processo, o teste psicotécnico, teste de tiro, tudo, mas na Polícia Federal apareceu um problema muito antigo, coisa boba, mas apareceu. Não teve jeito, tive que devolver o dinheiro dele”, exemplificou.
Clóvis Cerqueira, no entanto, afirma que não é a favor do porte de arma – quando o proprietário pode circular livremente com o armamento. “Sou contra o porte porque se a pessoa for assaltada e o bandido achar uma arma com o cidadão, não vai vê-la como uma vítima qualquer, mas sim como uma ameaça. E isso muda o comportamento do bandido, o que pode trazer muito mais risco para aquela pessoa”, afirmou, completando: “Além disso, quando a pessoa anda armada, tem que estar preocupada o tempo inteiro, olhando para os lados, tentando prever o que pode acontecer. Não vejo necessidade disso. Deixe a arma em casa, para defender sua família”, disparou.

Vereadores são contra armas  na Câmara
Entre as categorias que poderão portar armas, a que mais chama atenção é, sem dúvida, a dos políticos. Pensando nisso, o aQui entrevistou vários vereadores de Volta Redonda para saber qual a opinião deles sobre o porte de armas no plenário da Casa e ainda nas dependências da Câmara. Todos foram contrários a isso. Confira a opinião deles:

Bochecha
“Sou contra o porte de armas no plenário. Porque a pessoa (vereador) pode se exaltar no calor da emoção e cometer um ato que depois não vai ter como voltar atrás”.

Laydson
“Sou contra, porque acho que não estamos preparados. Não fomos instruídos para isso. O nosso povo não tem essa cultura (das armas). Precisamos nos preparar melhor para que isso seja colocado, possivelmente mais à frente”.

Maurício Pessoa
“Sou contra. Aqui não é ambiente pra se andar armado. A não ser que seja uma pessoa como um policial, uma pessoa que defenda os direitos e interesses do cidadão”.

Paulinho do Raio X
“Sou totalmente contra. É um lugar onde vamos legislar, a segurança não deve ser feita pelo próprio vereador. A Câmara tem que ter essa estrutura de proteção, não só para os servidores, mas para a população presente e para os vereadores também”.

Luciano Mineirinho
“Ainda não analisei o decreto do presidente, mas eu particularmente não quero. Sou totalmente contra ter armas no plenário, A arma pode levar a situações graves – principalmente no Legislativo, uma Casa com embates, discussões. A arma nesse caso pode levar a um mal maior”.

Rosana Bergone
“Sou contra o porte de armas no plenário. Penso que no calor das discussões se percebe alguns parlamentares bastante raivosos, exaltados, sem arma. Imagine portando uma arma. Temo pela vida de todos”.

Isaque
“Dentro do plenário sou contra. Mas sou a favor do porte de arma para a população. Porque os bandidos ficam armados e a população fica desarmada? Creio que o nosso presidente Bolsonaro está fazendo justiça. Mas, dentro do plenário sou contra qualquer tipo de arma. Aqui é uma casa de debates, às vezes os ânimos se exaltam”.

Rodrigo Furtado
“Dentro do plenário não sou a favor do porte de armas. Aqui é um local público, pode haver conflitos, é desnecessário. Vai faltar segurança. No plenário, em repartição pública, sou totalmente contra”.

José Augusto
“Sou totalmente contra. Não faz sentido, pra quê isso? Se a intenção nossa, como legislador, é acalmar ânimos, ser pacíficos, é ter oportunidade de ouvir e de falar… E a arma pode estar na mão de uma pessoa que, por alguma coisa, se exalta e acaba fazendo uma besteira, e se arrependendo pelo resto da vida”.

Fernando Martins
“Sou contra porque a cabeça do homem é dominada por emoções a cada momento. Imagina, em uma discussão sobre um projeto, alguém perde a cabeça, saca da arma e mata um colega. Então é melhor prevenir que remediar. Sou totalmente contra ter arma dentro do plenário”.

Carlinhos Santana
“Sou contra. Em um momento de exaltação, não sei se um vereador, ou deputado, ficar ofendido, vai achar que tem que ser na bala. Aí vai sair do campo das ideias políticas. Sou totalmente contra que se possa portar arma em plenário”.

Neném
“Sou contra, não só no plenário, mas em todo lugar se você não for policial, das forças armadas ou da polícia federal. Eu, por exemplo, nunca usaria uma arma. Acho que o brasileiro não está preparado para usar arma de fogo. Minha preocupação é o dia a dia, uma discussão, o que pode acontecer com tantas pessoas armadas”.

Jari
“Uma das coisas que tenho dito é que ao invés do atual governo Federal transferir a questão da segurança para a população, deveria é dar condições para a população estudar. Dar para a população caneta e caderno, e não arma. No plenário, por mim, não tem porquê ter porte de arma”.

Granato
“No plenário sou contra. Você tem discursos calorosos, debates calorosos. No momento desse embate, não dá tempo do sujeito fazer uma reflexão, e se está com uma arma na mão e se sentir ofendido, pode sacar e atirar. Acho que no interior da Câmara, além do plenário, também não. Seja na Câmara Federal, Alerj, sou contra. Tem que ter algum local para ficar acautelada a arma”.

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