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Quinta-Feira, 16 de Agosto de 2018
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Publicado em 15/01/18, às 08:43

‘Arrastões do bem’

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Novo comandante não acredita em UPPs

Vinícius de Oliveira

Com formação voltada para a área de Recursos Humanos e gerenciamento de projetos, o novo comandante do 28º Batalhão da Policia Militar, tenente coronel Márcio dos Santos Guimarães, 44 anos, designou, ao assumir o cargo no dia 13 de dezembro, uma importante missão a ser cumprida por seus comandados enquanto estiver à frente do Batalhão do Aço: fazer com que a população volte a confiar na PM. E, conforme contou ao aQui, durante entrevista exclusiva em seu gabinete, na tarde de terça, 9, ele não acredita que aparelhos de repressão, como as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), por exemplo, sejam eficazes nesse sentido, nem mesmo no combate efetivo ao crime.

 

“A que se propôs, as UPPS fracassaram. Elas tiveram a função de pegar de volta territórios antes dominados pelo tráfico. A princípio, isso apenas amenizou os crimes nas regiões onde se instalaram, mas fez com que os criminosos rumassem para outras regiões e, ainda assim, não gerou confiança na população. Hoje vemos que muitas áreas que foram pacificadas voltaram a sofrer influências dos criminosos”, analisou o comandante, frisando que não é a favor da criação de uma UPP em Volta Redonda, uma das promessas feitas pelo governador Luiz Fernando Pezão que não saiu do papel. “Nenhuma área sob jurisprudência do 28º é dominada pelo tráfico de drogas. E isso não é mérito meu. Logo, não existe necessidade de uma Unidade de Polícia Pacificadora por aqui”, crê.

 

Ainda de acordo com Márcio dos Santos, mais eficaz do que as próprias UPPs são os ‘arrastões do bem’, uma espécie de caravana criada por ele que destaca cerca de 50 policiais para visitar um determinando bairro. “A confiança leva tempo, se adquire quando a PM dá respostas rápidas e transparentes, mas para isso a população precisa conhecer os policiais. Esse arrastão tem justamente essa função. Os cerca de 50 policiais se dividem numa rua de um bairro. Eles entrevistam famílias, conversam sobre a segurança do local e mostram que estão dispostos a ajudar. Essas famílias geram um núcleo de informação direta com a PM”, contou, salientando que a estratégia deu certo em Três Rios, cidade onde atuou como comandante antes de se estabelecer em Volta Redonda. “Lá, as pessoas se sentiam mais próximas da PM. Passaram a confiar na seriedade da corporação e passavam informações importantes. Não é à toa que consegui apreender mais de 1,5 toneladas de drogas”, pontuou.

 

Segundo o novo comandante da Polícia Militar, os primeiros passos já foram dados nesse sentido. “A primeira medida para aproximação da PM será a criação de um WhatsApp (ainda não disponibilizou o número). Através dele, as pessoas poderão, de forma segura, fazer suas denúncias”, disse, acreditando que o fato do número do celular do denunciante ficar registrado no grupo da Polícia Militar não fará com que o cidadão se sinta receoso de mandar suas mensagens. “Claro que levará tempo para que as pessoas confiem, pois sabem que o número ficará registrado. Mas, justamente pela confiança que geraremos nas pessoas, elas se sentirão seguras até mesmo para denunciar casos de corrupção. Peço que me testem”, desafiou.

Assalto a pedestres

 Quando questionado sobre as medidas que vai adotar para a redução da criminalidade, o comandante explicou que a PM não é a salvadora do mundo e não teria condições de resolver, por si só, as mazelas da segurança pública no Brasil. Mas, dispara, existem algumas medidas que podem amenizá-las. “Um dos pontos estratégicos é identificar a mancha criminal da cidade. Assim que cheguei no 28º BPM, por exemplo, identifiquei altos índices de roubos de rua. Vimos que a crise do estado não só causou desemprego na população, mas também prejudicou o trabalho da PM, pois, entre outras, há falta de manutenção das viaturas e, com isso, com menos patrulhamento, esses tipos de delitos, principalmente roubo de carros e celulares, aumentam”, explicou.

 

Segundo Márcio dos Santos, a estratégia para resolver especificamente o problema é simples: criatividade. “É preciso trabalhar com o que temos. O efetivo é pequeno, muitas viaturas estão precarizadas e faltam boas condições, mas precisamos estabelecer estratégias e fazer a lei ser cumprida. A ideia, então, é priorizar a aplicação do efetivo em dias e horários onde a PM se faz mais necessária. Em Barra Mansa, no Centro e, em Volta Redonda, na Vila. Só de se fazer presente, a PM já faz toda a diferença”, acredita.

 

Motivação

Salários atrasados, viaturas em frangalhos e baixo efetivo são os principais desafios da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Em Volta Redonda e Barra Mansa não é diferente. E para driblar esses empecilhos e fazer com que a PM cumpra com seu dever, o coronel Márcio lança mão de algumas armas que, segundo ele, deram muito certo em Três Rios: motivação e meritocracia. “O nosso policial precisa ser motivado. Fiz com que eles internalizassem uma frase do filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, ‘faça o teu melhor nas condições que tem, enquanto você não tem condições melhores para fazer ainda melhor’”, comentou.

 

O plano motivacional do comandante tem três vertentes que, segundo ele, colaboram para um trabalho mais efetivo e comprometido dos policiais. O primeiro é mensal e envolve entidades importantes, como a Associação Comercial. “Apresentamos às associações comerciais, por exemplo, o policial que se destacou no mês. E, assim, ele é reverenciado pelos representantes da sociedade”, disse.

 

O segundo ponto é o cálculo do que chama de “produtividade de repressão qualificada”. Em outras palavras, o coronel premia o policial que mais prende. “A cada três meses, dentro do quartel, realizamos uma cerimônia para homenagear o PM que conseguir fazer mais apreensões de drogas, por exemplo, ou prisões”, explicou Márcio. Questionado se essa prática não incentivaria prisões arbitrárias, ele negou. “O sistema criminal está sendo aperfeiçoado. Antes de o suspeito ficar detido por definitivo, seu caso passa, primeiro, pela apreciação de um delegado da Polícia Civil e, em 24 horas, o juiz valida essa prisão ou não através da audiência de custódia. Isso tudo faz com que diminuam os abusos”, defendeu.

 

Por fim, a terceira medida de motivação adotada pelo comandante é a valorização financeira. “Existe um fundo de Segurança Pública no governo do Estado usado apenas para recursos materiais como manutenção de viaturas. A ideia é poder usar parte dessa verba para melhorar o salário dos policiais que se destacam”, sugere. A prática já acontece na Educação, através do Fundeb (Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação Básica), uma verba repassada pelo Governo Federal a todos os municípios e estados para, entre outras, a valorização financeira do profissional do magistério.

 

‘Fazemos nossa parte’

O tenente coronel Márcio dos Santos embora mantenha inabalável a fé na instituição policial da qual pertence, entende bem que sozinha a PM não é capaz de sanar os problemas de segurança da população. “A comunidade costuma culpar a Polícia Militar por todos os problemas que lhes cercam. Mas política de segurança pública abrange toda a sociedade. Ou seja, todos somos responsáveis pela manutenção da segurança em nosso bairro, cidade e país”, pondera.

 

Ainda de acordo com o comandante, tudo começa dentro de casa. “A orientação que os pais dão aos filhos, bem como os exemplos começam a determinar o caráter do cidadão. Os preceitos religiosos também influenciam nessa formação. A escola também é responsável por esse processo. O próprio mundo do trabalho também influencia na segurança pública ou falta dela. Quando um desses pilares citados se faz ausente ou defasado na vida do indivíduo, provavelmente ele será absorvido pelo crime. Por isso a PM não tem condições de resolver todos os problemas, mas fazemos nossa parte, mesmo que isso signifique prender as mesmas pessoas todos os dias”, finalizou.

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