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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Publicado em 20/08/18, às 09:29

Além da boleia

Por Pollyanna Xavier

Jorge Monteiro se levanta às três e meia da madrugada porque precisa pedir o desbloqueio do caminhão às quatro. O café é tomado na primeira parada, por volta das seis da manhã; até lá, costuma afugentar o sono com goma de mascar e as notícias do rádio. Dirige mais de 800 quilômetros por dia, dependendo da distância do cliente. Almoça e janta no rancho e, quando tem sorte, toma um banho quente de até 10 minutos num posto de gasolina. Faltando pouco para as 23 horas, recebe um aviso no painel, do serviço de rastreamento, para pernoitar em algum lugar seguro. É a hora de dormir.

 

A rotina pesada inclui também abrir e dobrar lonas imensas, desamarrar cintas, fazer manobras quase que impossíveis, segurar a urina por horas e ainda enfrentar a insegurança das estradas. Seu Monteiro é caminhoneiro/cegonheiro e se orgulha da profissão. É percorrendo os milhares de quilômetros de estradas que cortam o país que ele leva o sustento para a família. Falando em família, ele a vê esporadicamente. “Eu já cheguei a ficar 14 dias na estrada”, conta, referindo-se a uma viagem que fez para o norte do Brasil. “Na última greve cheguei a carregar o caminhão, mas quando ia viajar a greve estourou. Deixei o caminhão na garagem da empresa e acompanhei pelo WhatsApp o sofrimento dos companheiros que, infelizmente, não conseguiram chegar em casa”, lembra.

 

A última greve mostrou a força do caminhoneiro. E que força! Por 12 dias todos os setores do país foram afetados pela paralisação da categoria. Os ramos de atividade e praticamente todas as linhas de abastecimento foram prejudicados pela greve. Não havia combustíveis nos postos de gasolina, os mercados foram desabastecidos, os aeroportos pararam, as escolas suspenderam suas aulas, o comércio diminuiu as vendas, e por aí vai. Milhares de caminhoneiros estacionaram suas frotas nos acostamentos das estradas e ficaram ali, longe de casa e da família, na dependência da solidariedade das pessoas.

 

A greve foi deflagrada pelos caminhoneiros autônomos, que reivindicaram um aumento no valor do frete e uma queda no preço do diesel. Mas até os caminhoneiros que são funcionários de transportadoras aderiram. Ao final da greve, o benefício veio apenas para os autônomos. “Muitos de nós tivemos nossas comissões reduzidas. Na empresa em que trabalho, a redução foi de até 2% no valor da comissão. Pode parecer pouco, mas dependendo do frete, chega a R$ 300,00 por viagem. A empresa em soltou um comunicado interno dizendo que as mudanças feitas pelo governo Federal tornaram o cenário, dali pra frente, muito incerto. O frete pode até ter aumentado, mas a nossa comissão caiu”, desabafa.

 

Segundo Monteiro, matematicamente falando, o faturamento mensal do motorista não caiu. Ele explicou que, embora o frete tenha aumentado – o que, por via de regra, resultaria num aumento no valor das comissões –, o ganho final não teve nenhum acréscimo. “Antes da greve, uma viagem para a Argentina, por exemplo, poderia render até uns R$ 5 mil para o motorista. Hoje, ela rende o mesmo valor, porém com a comissão menor. Como pode isto? Aumentaram o frete, mas diminuíram a comissão. Deu no mesmo. Não perdemos, apenas deixamos de ganhar o aumento que o governo deu para os autônomos”, analisou.

Triste realidade

Caminhoneiros fazem protesto contra a alta no preço dos combustíveis na BR-040, próximo a Brasília.

Motorista passa até 15 dias longe da família

O caminhão se tornou a casa de Monteiro há alguns anos. Nele tem geladeira, fogão, gás de cozinha, armários, cama, televisão e climatizador. Mas o conforto mesmo só em casa. “A nossa cozinha é chamada de rancho. Tive que aprender a cozinhar e preparar minha própria refeição. Comer na estrada sai caro, se bobear, toda a comissão que a gente ganha fica na estrada, então o melhor mesmo é abrir o rancho”, disse. “Quando chove é um problema. No inverno também é mais complicado. Não dá ânimo. Tem regiões onde faz muito frio. No Sul já enfrentei temperatura negativa, as mãos e os pés da gente congelam”, comentou.

 

A louça suja é lavada no corote – uma espécie de barril com torneira, onde fica reservado um pequeno volume de água. Monteiro tem mesa e cadeiras no rancho e várias panelas para usos diferentes. Um inversor de frequência garante o uso de um liquidificador e de uma sanduicheira, mas o preparo de sucos e lanches só é feito quando o caminhão fica muito tempo parado aguardando emissão de nota fiscal ou carregamento. “Não dá tempo. É tudo muito corrido!”, conta.  

 

A vida na estrada é uma aventura, mas também tem seus perigos. Dependendo da carga transportada, o risco de assaltos é muito grande. “A gente roda muito e os caminhoneiros de outras regiões evitam cargas para o Rio por conta dos assaltos. Tenho um amigo que foi assaltado na Dutra e levado para uma comunidade do Rio sob a mira de um revólver. Ele estava carregado de itens de higiene pessoal e os bandidos o obrigaram a entrar na favela. Ele só saiu de lá com o caminhão totalmente vazio. Depois do assalto, a empresa que ele trabalha não deixou ele viajar por 30 dias, até terminar de apurar as circunstâncias do assalto. Queriam ter certeza de que ele não tinha participação naquilo. Revoltante esta desconfiança”, reclamou.

 

Rio de Janeiro e São Paulo são os dois estados do Brasil que lideram o ranking de roubo de cargas no país. Juntos, eles registraram 87,8% das ocorrências de roubo em 2017. Só o Rio registrou 9.862 casos, enquanto que em São Paulo foram 9.943 registros do crime. Os dados são da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, com base nas informações da secretaria de Segurança Pública ou Defesa Social, além de entidades que representam os caminhoneiros e o setor de transporte de cargas. Os dados, pasmem, colocam o Brasil como um dos mais perigosos no transporte de mercadorias, perdendo somente para países em guerra como a Síria, Yemen, Líbia, e Afeganistão.

 

Outra estatística preocupante é quanto aos índices de acidente de trânsito envolvendo caminhões. Os caminhoneiros do Rio Janeiro são os que mais morrem por acidente de trânsito relacionado ao trabalho em todo o estado. A informação é do Ministério da Saúde com os dados dos Sistemas de Informação de Agravo e Notificações (SINAN) e do Sistema de Mortalidade (SIM). Os números foram apurados entre janeiro de 2007 e dezembro de 2016 e mostram uma realidade ainda mais preocupante: o número de óbitos em acidente envolvendo caminhões, seja no trajeto até o cliente ou quando estava indo ou voltando do local de trabalho, é alto.  

 

Um levantamento inédito aponta que em 11 anos, o número de notificações de acidentes de trânsito relacionados ao trabalho foi de 1.056, em todo o estado do Rio. Contando com todos os tipos de transportes, o Rio de Janeiro registrou 507 mortes no mesmo período. Os anos de 2015 (177) e 2016 (305) foram os que apresentaram os maiores números de notificações para um único ano. Em toda a região Sudeste, foram registradas 5.562 mortes, sendo 957 só de caminhoneiros. Monteiro teve amigos que, infelizmente, engrossaram essa triste estatística.

 

No ano passado, ele perdeu um companheiro de estrada vítima de um acidente de trânsito. O caminhoneiro foi atingido por um carro de passeio quando desceu do caminhão para preparar a carga para ser descarregada. O acidente foi dentro do porto de Itaguaí, no Rio, numa área mal iluminada. O carro que o atropelou era conduzido por um funcionário do porto, que não viu o caminhoneiro. “Ele morreu na hora. Deixou mulher e filhos pequenos”, lamentou.

 

Monteiro também já se envolveu em um acidente de trânsito. Foi na Rodovia Fernão Dias. “Eram umas dez da noite e a estrada estava tranquila. De repente, uma mulher atravessou a rodovia, do nada. Até hoje eu não sei de onde ela saiu. Eu tentei frear o caminhão, mas acabei atingindo ela. Parei e já desci desesperado achando que ela tinha morrido. Ao mesmo tempo que iluminava o local com a lanterna do meu celular, eu ligava para a Polícia Rodoviária Federal para avisar do acidente. Por sorte a mulher não morreu e nem desmaiou. Encontrei ela sentada, completamente desorientada na beira do asfalto. O Samu chegou junto com a PRF. A mulher estava drogada, tinha cocaína nos bolsos e se recusou a receber atendimento médico. Eu fiquei em choque. A polícia chamou ela de mula, pelo fato de atravessar a estrada com droga”, relatou.

 

A Lei dos Caminhoneiros ou o chamado ‘horário da Dilma’ ajudou a diminuir os índices de acidente entre carreteiros, mas os números ainda assustam. Criada no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, a lei prevê, entre outras, uma jornada de trabalho intervalada para a categoria: para cada cinco horas e meia trabalhadas, são obrigatórios 30 minutos de descanso. A mudança permitiu pequenas paradas em viagens de longa distância. “Pode parecer que não, mas parar um pouco para tomar um café ou jogar uma água no rosto faz muita diferença. Ajuda a despertar”, acredita Monteiro.

 

 Com a Lei do Caminhoneiro, aumentou-se o monitoramento pela Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (Renast). Esse monitoramento ficou a cargo do Ministério da Saúde através do desenvolvimento do Projeto Vida No Trânsito. Trata-se de um projeto que tem conseguido priorizar a intervenção nos fatores de risco para acidente de trânsito, como o consumo de bebida alcoólica e velocidade inadequada para a via, além de priorizar determinados grupos de vítimas, como os motociclistas e caminhoneiros a partir das análises de situação.

 

Importantes avanços para a prevenção de acidentes de trânsito estão sendo obtidos no país, a partir da implementação da Política Nacional sobre o álcool, por meio do Decreto nº 6.117/2007, que contempla, entre suas diretrizes, o tema “associação álcool e trânsito”, e da alteração do Código de Trânsito Brasileiro, por meio da Lei nº 11.705 (“Lei Seca”), instituída em 2008. Outra ação que conta com a participação do Ministério da Saúde e que tem contribuído para a conscientização da população no trânsito é o Rodovida. Os trabalhos começaram em  dezembro de 2017 e foram concluídos em fevereiro deste ano, período em que foram contabilizados 2.930 feridos graves, contra 3.012 no ano anterior.

Sexo, drogas, traição e escolaridade

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Drogas são usadas para o motorista ficar ‘aceso’

A jornada de trabalho do caminhoneiro – longe de casa, da mulher e dos filhos – ajudou a perpetuar, por muito tempo, a fama de mulherengo do motorista. Ainda hoje, este estigma existe e está associado ao caminhoneiro. Mas a realidade de muitos motoristas não é esta. “Muitos viajam com as esposas, com os filhos”, contou Monteiro, que já levou a própria mulher em algumas viagens. “É bom ter a esposa por perto, a solidão da estrada chega a doer. Quando paramos para almoçar ou descansar, geralmente encontramos outros motoristas com suas famílias. O clima é outro, o ambiente é familiar. Há muito respeito envolvido nisto”, destacou.

 

Monteiro não gosta da fama de mulherengo que persegue o caminhoneiro. Ele ressalta que na empresa em que trabalha – cujo nome não será citado – não é permitido dar caronas para mulheres nas estradas. “Os caminhões são monitorados e rastreados. Não se pode parar para dar carona. Isto dá até demissão. Se por algum motivo o motorista precisar fazer uma parada eventual, seja para ir ao banheiro ou verificar alguma coisa no caminhão ou na carga, ele tem que pedir autorização para o rastreamento. É demorado, burocrático e nem sempre compensa parar pela dor de cabeça que é. Tem lugares que são considerados de risco e o rastreamento não permite parar de jeito nenhum. Se paramos, o alarme dispara e a empresa imediatamente liga para saber o que aconteceu. Então, ninguém quer passar por isto em troca de uma carona”, pontuou.

 

Como forma de promover educação e saúde para o trânsito e para a vida do próprio profissional da estrada, muitas empresas transportadoras costumam oferecer palestras educativas para seus motoristas. Na pauta, temas como prostituição, sexo, drogas, pedofilia, DST e exploração sexual de crianças e adolescentes são abordados. “São assuntos pesados, mas muito necessários para a categoria. Infelizmente estas coisas existem na estrada, mas não na proporção que as pessoas pensam. Quando se fala em caminhoneiro, logo associam a tudo isto, mas não é bem assim. Há muita gente séria nas estradas, comprometidas com a família e com o trabalho”, garantiu.

 

Outro detalhe relevante na estrada é quanto ao uso de drogas ilícitas, especialmente rebites – remédios de uso controlado que ajudam a manter o motorista acordado por longas horas. Um estudo realizado pela Confederação Nacional do Transporte, que entrevistou 1.066 motoristas em 2016 e traçou o perfil do caminhoneiro, revelou que 34,4% dos entrevistados já receberam a oferta de algum tipo de substância ou droga ilícita para se manter acordado. Outros 54,5% nunca receberam a oferta, o restante não respondeu ou não sabe. O maior percentual de quem nunca fez uso da medicação é reflexo da nova legislação dos caminhoneiros, que obrigou a realização de exame toxicológico para motoristas carreteiros, sob pena de suspensão da habilitação.  

 

A mesma pesquisa também revelou o grau de escolaridade do motorista de caminhão no Brasil. O resultado surpreendeu, até porque o preconceito sobre a (suposta) pouca escolaridade do motorista foi outro detalhe que ajudou a manchar a reputação da categoria. Dos entrevistados, apenas 0,6% não tem nenhum grau de instrução ou é analfabeto. 7,7% terminaram o ensino fundamental e 28,4% concluíram o ensino médio. A pesquisa revelou ainda que 1,2% têm curso superior completo e 0,3% tem pós-graduação. Monteiro tem ensino médio completo, curso técnico em eletromecânica e já foi professor instrutor do Senai de empilhadeira. “Não fiz uma faculdade, nem por isto me considero menos capacitado”, disse.

 

Para ele, infelizmente muita gente tem uma ideia errada do que é ser um caminhoneiro. A profissão exige responsabilidades como outra qualquer, e habilidades como poucas que existem por aí. Manobrar carretas enormes, carregadas com algumas toneladas, não é para qualquer um. No Brasil, por exemplo, existem cerca de dois milhões de caminhoneiros que percorrem as estradas de norte a sul diariamente. A responsabilidade de entregar a carga em perfeitas condições e dentro do prazo definido, muitas vezes a milhares de quilômetros do ponto de partida, não é proporcional à qualidade de vida a que estão submetidos esses profissionais. Monteiro sabe disto. Reclama apenas de dores nas costas e câimbras nas pernas, mas segue seu plano de viagem com seriedade e comprometimento. Certo de que a profissão, cercada de muito preconceito, é capaz de parar o país. E para, literalmente!

 

Nota da redação – O nome verdadeiro do motorista entrevistado foi preservado a pedido do próprio profissional. Jorge Monteiro é fictício. Morador de Porto Real, ele é motorista carreteiro de uma das empresas transportadoras que atendem o polo industrial da cidade.  

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