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Terça-Feira, 26 de Março de 2019
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Publicado em 01/03/19, às 18:36

Águas de março

Roberto Marinho

Se a história se repetir, o mês de março será o mês das águas… e das enchentes.   E o período das chuvas está preocupando um grupo de lojistas e empresários, além de moradores que, de uma hora para outra, começaram a ter que conviver com o drama dos alagamentos em alguns pontos da cidade do aço, que eram incomuns. Agora já são normais e anormais.

 

É só chover forte, por exemplo, por mais de dez minutos, que os voltarredondenses do início da Avenida Amaral Peixoto, ficam à espera do pior: ter que fechar as portas das lojas e perder um dia de trabalho e vendas, porque o alagamento da avenida vai acontecer e inundar as lojas. Além, é claro, de espantar os clientes, porque ninguém vai às compras de bote.

 

Outro ponto crítico passou a ser a entrada dos bairros Jardim Normândia e Village Santa Helena. Ao lado da Escola Municipal Domingos Maia, quando chove, ninguém consegue passar a pé pelo trecho próximo da unidade escolar. E de carro, o risco é ver o veículo enguiçar e ser levado pelas águas do Córrego São Geraldo, que passa ao lado do colégio.   

 

Para muitos, o problema dos alagamentos tanto na Amaral Peixoto quanto ao lado da Escola Domingos Maia piorou com a ocupação de áreas ao longo da Rodovia dos Metalúrgicos, como a construção das sedes do Walmart, Spani e, por último, do Shopping Park Sul, que chegou a construir um sistema de drenagem, que deságua – junto com a drenagem da Rodovia dos Metalúrgicos – no Córrego São Geraldo, que passa aos fundos da Avenida Capitão Benedito Lopes Bragança.

 

“O problema é antigo, os alagamentos sempre existiram, mas desde que foi feito esse sistema de drenagem do shopping e da rodovia, piorou muito”, afirma um lojista que trabalha há mais de 20 anos na região, e pediu para não ser identificado. “Já dei muita entrevista, falei na TV, mas não adiantou nada. Cansei de me expor”, afirma, resignado. Segundo ele, se antes era preciso um temporal para encher o início da Amaral Peixoto, hoje basta uma chuva forte de dez minutos de duração para que o caos se instale. “Quando começa a chover forte, por mais de cinco minutos, eu já me preparo para fechar a loja, porque sei que vai alagar tudo”, relata.

 

Para se precaver, o comerciante instalou uma barreira de proteção na porta da sua loja, para evitar a entrada da água. E ele tem na ponta da língua a razão para o problema ter aumentado tanto: “A prefeitura pegou a drenagem do shopping, das cinco pistas da Rodovia dos Metalúrgicos, e jogou tudo no leito do Córrego São Geraldo, que não comporta esse volume de água todo”, pontua, acrescentando a falta de educação de alguns moradores da São Geraldo, que usam o córrego como depósito de lixo. “Já tiramos sofás, geladeira, um monte de coisas. Hoje vemos muitos colchões, sacos de lixo, restos de poda e jardinagem. O pessoal também não colabora”, desabafa.

 

O funcionário de uma loja – que trabalha há mais de dez anos na Avenida Amaral Peixoto – endossa a posição do lojista. E também entende que o problema piorou com a inauguração do Shopping Park Sul. “Antes, era preciso um dilúvio para encher a avenida. Hoje em dia, basta uma chuva forte e em dez minutos está tudo alagado”, diz ele, que também pediu para não ser identificado. “O patrão pode não gostar”, alegou. Aliás, o patrão também mandou instalar uma barreira na porta da loja para evitar a entrada de água.

E não é preciso gastar muita sola de sapato para descobrir como os alagamentos afetam os negócios destes comerciantes. As redes sociais e aplicativos de mensagens estão cheios de postagens com os últimos alagamentos na Amaral Peixoto – desde o Royale (supermercados), passando pelo posto JK ,até a entrada para o bairro Colina, mostrando funcionários desesperados tentando tirar água das lojas com rodo. Sem contar os carros com água chegando nas portas e pessoas atravessando a ‘rua que virou rio’, com água nos joelhos. E, caso algum curioso tente, vai ter dificuldades para encontrar imagens parecidas de anos anteriores. Ou seja, o problema, na dimensão que está atualmente, parece ser recente.

Sem culpa

O engenheiro civil Júlio César Pires Pereira, que é um dos responsáveis pelas obras dos loteamentos Jardim Provence I e II (este último ainda em fase de implantação, grifo nosso), próximo ao Jardim Amália, que também poderiam estar agravando o problema dos alagamentos na Amaral Peixoto, foi ouvido pelo aQui. E ele nega que os dois empreendimentos, da família do empresário Mauro Pereira Campos, estejam contribuindo para as cheias do Córrego São Geraldo ou do Córrego Jardim Amália.  “Nos dois empreendimentos há uma escada dissipadora, que diminui a velocidade da água da chuva e evita que ela chegue de uma vez só ao córrego. Além disso, há barragens controladoras de vazão (piscinão, grifo nosso), que acumulam o volume excessivo de água e evitam que ela deságue no córrego de uma vez só”, afirma.

 

Outros especialistas ouvidos pelo aQui não deixaram por menos. Apontam que as causas mais prováveis para o agravamento do problema estariam relacionadas ao tamanho do estacionamento do Shopping Park Sul – além dos que foram construídos para as redes de hipermercados Spani e Walmart. “O estacionamento do shopping é enorme, com uma superfície impermeabilizada pelo asfalto. O mesmo acontece nos hipermercados. A água da chuva não consegue mais penetrar no solo e segue para o sistema de drenagem. Que funciona bem para eles. Evita o alagamento no shopping, mas joga o problema mais para baixo, para a Amaral Peixoto”, relata um deles.

 

Ele vai além. Diz que a construção de uma barragem (‘piscinão’) no Córrego São Geraldo poderia aliviar os alagamentos. “Não tenho nenhum estudo técnico que comprove essa hipótese, mas meus mais de 30 anos de experiência me indicam isso”, aponta um engenheiro. “Se o ‘piscinão’ existisse, seria possível controlar a vazão da água da chuva no sentido São Geraldo-Amaral Peixoto”, frisa. 

 

Para o engenheiro, a situação piora porque uma galeria existente entre a Amaral Peixoto e o Aterrado – por baixo da avenida – construída sobre pilares, estaria assoreada, cheia de interferências, o que estaria impedindo o escoamento da água do córrego no leito do Rio Paraíba.  “Acho que ninguém sabe o real estado dessa galeria. Ela é muito antiga e tem um trecho que é atravessado por pilares, por exemplo, onde está o Posto JK. Essas interferências acabam acumulando a sujeira vinda do córrego, e acaba funcionando como uma rolha, o que só agrava o problema”, compara.  

 

Que o problema dos alagamentos no início da Amaral Peixoto não é novo, todo mundo sabe. Mas que ele ia virar esse tormento, só quem conhece a área bem de perto poderia prever. E foi exatamente isso o que fez um grupo de comerciantes do local, incluindo aquele citado no início da reportagem. Uma comissão, formada por ele e outros dois comerciantes, foi até a prefeitura em março de 2018, e informou ao prefeito Samuca Silva e ao secretário de Infraestrutura, Toninho Oreste, que o problema dos alagamentos tinha tudo para se agravar com as obras de drenagem que foram feitas ao longo da Rodovia dos Metalúrgicos.

 

“Nós fomos à prefeitura e falamos do nosso medo. Eles resolveram o problema do shopping e jogaram lá para baixo, na Amaral Peixoto. Ou seja, para nós”, desabafa o comerciante, adiantando que, depois da reunião, a prefeitura prometeu tomar providências, e chegou a fazer uma limpeza do Córrego São Geraldo, mas a medida não teria sido suficiente. Até o fechamento desta matéria, a prefeitura de Volta Redonda não havia confirmado o teor da reunião com os comerciantes.

 

No entanto, a prefeitura respondeu outras perguntas sobre o problema. De acordo com o secretário de Infraestrutura, Toninho Oreste, os alagamentos sempre existiram, e, “após a canalização de grande parte dos córregos São Geraldo e do Aterrado (próximo à Capela Municipal, grifo nosso), as ocorrências acontecem excepcionalmente quando ocorrem chuvas muito fortes”, disse, garantindo que a chuva forte que caiu no dia 19 não teria alagado a área.

 

Sobre a possibilidade do sistema de drenagem do shopping ter contribuído para piorar o problema, o secretário afirmou que o empreendimento fez a rede de drenagem própria, que foi ligada à da prefeitura na Rodovia dos Metalúrgicos, e que na aprovação da drenagem do empreendimento, o projetista teria apresentado o cálculo da bacia de contribuição da área para comprovação que a drenagem proposta não comprometeria o sistema de drenagem existente”. O secretário também comentou a hipótese levantada pelos engenheiros ouvidos pelo aQui, e disse que “os dados oficiais não correspondem com a informação”.

 

Mas o aQui também perguntou à prefeitura se, caso fosse comprovada a contribuição do sistema de drenagem do shopping Park Sul para os alagamentos na Avenida Amaral Peixoto, o centro comercial seria chamado para rachar as despesas de uma possível obra. E a resposta foi sim. “Entendemos que se for atribuído a contribuição da drenagem da área do shopping para o alagamento da Avenida Amaral Peixoto, todas as medidas, legalmente cabíveis, serão adotadas”, diz a nota emitida pelo secretário Toninho Oreste. Com uma ressalva. “Não há, com base nos dados técnicos, como você (o jornal aQui, grifo nosso) aponta, obra não ligada diretamente aos sistemas de drenagem do shopping”.

Em relação aos loteamentos Provence I e II, Toninho Oreste confirmou o que disse o engenheiro Júlio César. “O projeto dos loteamentos prevê o lançamento de uma distribuição do sistema de drenagem para os dois córregos existentes no pé dos taludes (morros, grifo nosso), com uma barragem de regulação de vazão, para as águas pluviais lançadas no Córrego São Geraldo, e a outra rede de drenagem lançando no Córrego Jardim Amália, que também terá um regulador de vazão, quando na execução do novo loteamento, já aprovado”, disse Toninho Oreste no comunicado.

 

O Shopping Park Sul também foi procurado para se pronunciar sobre o assunto e garantiu que o projeto de drenagem “foi feito de acordo com as normas técnicas em vigor e aprovado pela secretaria de Obras de Volta Redonda”.

Soluções

De acordo com Toninho Oreste, as possíveis soluções, a curto prazo, seriam a limpeza periódica das caixas de captação (caixas de ralo e bocas de lobo) e redes de manilhas tanto no Córrego São Geraldo quanto no Córrego Aterrado, para facilitar o escoamento da água da chuva. “O que vem sendo feito com frequência e vem dando resultado, como no caso citado acima, do dia 19/02, onde apesar da chuva forte, não houve alagamento. Já a médio prazo, Oreste diz que “se for o caso, (poderia) implantar as correções indicadas nos relatórios técnicos”. Será o caso?

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