Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 16 de Janeiro de 2018
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Publicado em 18/12/17, às 09:30

Aço com sabor de queijo

Pollyanna Xavier

A informação é quente como o aço do alto-forno: a CSN e o governo de Minas Gerais retomaram uma conversa de 2007 para a implantação de uma usina siderúrgica na região de Congonhas. Para muitos, a construção da nova unidade seria uma alternativa da CSN ao fechamento da UPV em Volta Redonda, que vem sofrendo vários ataques no estado do Rio e ainda dos ministérios públicos Estadual e Federal. A iniciativa de retomar as negociações para a construção da nova fábrica teria partido do governo mineiro para aproveitar a crise fluminense. Teria até agradado ao empresário Benjamin Steinbruch, que teria dado o ‘ok’ para o projeto ser desengavetado. 

 

O Protocolo de Intenções foi assinado em 2007 e previa investimentos da ordem de R$ 6,2 bilhões. Este total era para a construção civil e ainda a aquisição de máquinas e equipamentos. Na época, falou-se na geração de aproximadamente 5 mil empregos diretos e indiretos e a nova usina teria a capacidade instalada para produzir 4,5 milhões de toneladas/ano de aço. O documento estimou até o faturamento da CSN mineira: algo em torno de R$ 2 bilhões. Com o interesse da CSN em retomar os estudos para a implantação da nova unidade, esses números deverão ser recalculados. 

 

A CSN não comenta sobre as negociações, mas uma fonte ouvida pelo jornal destaca que a ideia é bastante estratégica, e cita pelo menos três motivo para isto: primeiro, porque a nova usina ficaria bem próxima à da CSN mineração, o que representa um custo baixo para Logística, já que é de lá que sai o minério de ferro para a produção do aço. Segundo, porque a CSN e o estado mineiro – e também o governo municipal de Congonhas  são parceiros e têm boa relação um com o outro. E terceiro, porque as exigências dos órgãos ambientais e da Justiça (MPF e MPE) sobre a UPV abrem uma possibilidade de expandir a produção para outras regiões, já que em Volta Redonda a CSN não tem como crescer mais. E muitos querem, inclusive, que ela seja fechada. 

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Jogo político  

No início do mês, quando a SEA notificou a CSN determinando a paralisação de suas atividades em 10 dias, pelo não cumprimento do TAC de 2016, teve gente que comemorou. Foi o caso, entre outros, do deputado estadual e ex-secretário estadual do Ambiente, André Corrêa. Reeleito com 81.356 votos (eleições de 2014), dos quais apenas 384 foram de eleitores de Volta Redonda, onde é um ilustre desconhecido, André usou as redes sociais para atacar a CSN. No Facebook chegou a reconhecer que seria impossível que o Estado mandasse fechar a CSN. Mas,  não perdeu a oportunidade e disse que a empresa “mereceu este tranco forte dos órgãos ambientais”.

 

André foi além. Disse que “ninguém em sã consciência, num momento de grande desemprego, quer fechar uma empresa pequena, muito menos uma do porte da CSN”. Porém, acredita que ela “aproveita do seu tamanho para não cumprir as leis ambientais”. Procurada, a CSN não quis repercutir as declarações do deputado. Mas uma fonte do jornal, ligada à empresa, disse que as críticas de André Corrêa não são técnicas, e sim políticas. Razão pela qual a CSN ignorou-as. “Ele não é daqui, não tem qualquer relação com a cidade ou com a usina e quis aparecer. Aproveitou a oportunidade, já que durante toda a semana não se falou em outra coisa”, comentou a fonte, pedindo para não ser identificada.

 

A fonte pode ter razão. É que assim que a notificação da SEA contra a CSN virou notícia, André Corrêa fez uma postagem no seu Facebook, atacando a CSN. Anunciou-se até como articulador de um encontro realizado entre o Estado, CSN e o Sindicato dos Metalúrgicos, Silvio Campos, o que não corresponde à verdade. Teria sido o senador petista Lindbergh Farias. “Como deputado, já pedi e foi marcada uma audiência para mediar esse conflito entre o Inea e a empresa. Já estou também em contato com o Sindicato dos Metalúrgicos, através do Silvio”, insistiu.  

 

A publicação teve mais de 20 mil visualizações, 320 compartilhamentos e centenas de comentários. Uns a favor do deputado, mas a maioria contrária às suas declarações. “Volta Redonda vai se tornar uma grande favela se a CSN fechar. Mas os nobres amigos deputados, profissionais do ministério público (…) esses estarão bem tranquilos. Coloquem na conta de vocês a tragédia que estão armando para mais de 23 mil famílias”, disse uma internauta. “Com todo o respeito, e como profissional de meio ambiente que atua na área, o senhor deveria estudar mais antes das ações e publicações públicas como esta (…) são políticos como este, que atuam em áreas que não são a sua especialidade que o Brasil está deste jeito. Lamentável publicação”, comentou outro.  Teve quem lembrasse que nos EUA, existem siderúrgicas e cidades – fantasmas por conta de uma crise financeira que assolou o território americano. “É isso o que ele (André Correa) quer? Que Volta Redonda vire uma cidade – fantasma?”, indagou um leitor em telefonema dado à redação do aQui. “Ele deve ganhar bem, né”, ironizou.

O que esperar?  

Apelidado de Verdinho por Benedicto Júnior, diretor do “departamento da propina” da Odebrecht, André Corrêa há anos comanda a área ambiental do Rio de Janeiro, ignorando até o governador Pezão. Foi secretário estadual do Ambiente e, enquanto titular da pasta, nomeou Antônio da Hora, um ilustre desconhecido na área. “Esse aí entende tanto de meio ambiente quanto de astrofísica”, criticou a fonte, acrescentando que “Da Hora” costuma dizer em alto e bom som que André Corrêa é seu chefe até hoje. “O mesmo acontece com o presidente do Inea, Marcos Lima, também subordinado ao André Corrêa”, revelou.

 

Em sua gestão como secretário estadual do Ambiente, André notabilizou-se por mergulhar, na frente da câmara da Globo, na Baía de Guanabara, para provar que a água não estava poluída. Mas teria escolhido um ponto e hora do dia onde a maré entrante na Baía fazia com que a água estivesse mais limpa. “Só em ano eleitoral é que fazem farra com esses assuntos. Tenho certeza que o povo não está em primeiro lugar. E a despoluição da Baía de Guanabara? Passou a olimpíada, acabou o assunto? Vai nadar no Rio Paraíba agora, deputado?”, publicou outro internauta, em forma de comentário na postagem que o deputado fez, em seu Facebook, contra a CSN.

 

Sobre o TAC que a SEA e o Inea questionam a CSN o cumprimento integral, André Corrêa mal falou. Provavelmente por não conhecer as cláusulas existentes. Segundo a fonte do jornal, se o deputado conhecesse o que está escrito no papel, o que a CSN já fez e o que os órgãos ambientais ainda exigem, saberia, por exemplo, que das 115 cláusulas, 112 foram cumpridas e não há qualquer gravidade nas três restantes, que justifiquem qualquer medida de força contra o funcionamento da CSN. “Fechar, então, nem pensar”, resume a fonte.

 

Em nota divulgada à imprensa na ocasião da notificação da SEA, a CSN informou que dos três itens restantes, dois se referem ao pó preto que cai das máquinas – dentro da Usina – durante o processo siderúrgico. E o terceiro item diz respeito ao nível de ruído dentro da fábrica. “Dos 5 pontos de ruído, a CSN reduziu 4, colocando-os nos níveis da Legislação. O quinto ponto absorve ruídos da rua e do trem e não tem como a CSN agir sobre ele”, informou a CSN em nota.

 

Para a fonte, a insistência da SEA e do Inea sobre o pó preto e o ruído é intrigante. “Será que o pó que cai dentro da Usina é motivo para desempregar 22 mil trabalhadores? Ainda mais sendo esse pó varrido diariamente? São 45 funcionários cuidando (no interior da UPV) dessa limpeza. O mesmo acontece com outras siderúrgicas como Usiminas e Gerdau e os órgãos ambientais de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul não criam esses problemas, só o do Rio”, reclamou a fonte. “O Estado não deve estar precisando de empregos”, ironizou.

 “A questão do ruído é surreal. Ainda mais porque ninguém reclamou. O Inea fixou-se neste ponto e fim de conversa. Isso é motivo para eles de fechar a UPV. É mais uma piada carioca, como muitas outras que vêm assolando nosso Estado, infelizmente. O que quer André Correa? Se ele disser que é técnico, não é verdade. Ele é que está no comando de toda essa guerra contra a UPV e contra Volt Redonda. Vai acabar sendo vitimizado pelo Ministério Público”, desabafou.

 

Nota da Redação – O deputado estadual André Corrêa foi procurado pelo jornal para comentar as declarações da fonte e falar sobre as postagens em sua página no Facebook. Mas, até o fechamento desta edição, não havia retornado ao contato.

 

TAC (I) – O prefeito Samuca Silva se posicionou diante da briga que as autoridades estaduais do meio ambiente vêm travando, influenciadas pelo deputado André Corrêa, contra a CSN. E deixou claro de que lado está: “A CSN é nossa maior empregadora, é importante não só para nosso município, mas para todo o país. Já conversei com o governador Luiz Fernando Pezão, e também com o presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, sobre o assunto. Essa instabilidade é ruim para a empregabilidade de Volta Redonda e para o futuro da cidade do aço”, comentou.

 

TAC (II) – Para Samuca, a CSN tem que cumprir o TAC atual e não ser obrigada a se sujeitar ao novo, como ‘exigem’ o deputado de Valença, o Inea, Ibama e a SEA (Secretaria Estadual de Ambiente). “A CSN tem que cumprir suas obrigações ambientais, isso é claro. Mas Volta Redonda também não pode ser prejudicada. Hoje, nós defendemos que não seja assinado um novo TAC, mas que os órgãos ambientais possam verificar o cumprimento do TAC de 2010, para que a UPV possa continuar operando. Esta instabilidade é muito ruim, tanto para a cidade quanto para a CSN. Daqui a 180 dias estaremos novamente discutindo alternativas. Temos que buscar o diálogo e cobrar o que foi acordado no passado”, completou o prefeito, referindo-se à decisão da secretaria de Estado do Ambiente de fechar a Usina Presidente Vargas.

 

Capacitar – A CSN está com inscrições abertas para o Programa Capacitar 2017 para pessoas com deficiência. Interessados devem ter mais de 18 anos e se inscrever até o dia 29 na secretaria da ETPC, na Vila. São 100 vagas para cursos de Operador Siderúrgico e Auxiliar Administrativo com ênfase em vendas e logística. Informações pelo (24) 3340-5422.

 

Turno (I) – O Sindicato dos Metalúrgicos tem realizado reuniões periódicas com os trabalhadores da CSN depois da implantação do turno de oito horas. A ideia é ajustar alguns detalhes e resolver problemas que vêm surgindo com a nova jornada. Inclusive, com acompanhamentos dos postos de trabalho.

 

Turno (II) – Segundo Silvio Campos, grande parte das queixas dos metalúrgicos é sobre o estacionamento de carros e motos e ainda os restaurantes da CSN. “Vamos cumprir o compromisso em fiscalizar o bom funcionamento dos mesmo para que os trabalhadores não sejam prejudicados. É importante que os trabalhadores denunciem qualquer irregularidade ou problema para que o Sindicato possa cobrar soluções da empresa”, frisou.

 

Cadê o peru? – Os trabalhadores da CSN não vão ganhar cesta de Natal, muito menos brinquedos para seus filhos. A empresa resolveu cortar os benefícios, e ainda suspendeu todos os almoços festivos. A decisão, claro, indignou o presidente do Sindicato, Silvio Campos, que vem tentando fazer com que a empresa reveja a questão. Mas, até agora, nada!

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