Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2018
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Publicado em 18/12/17, às 08:37

Abrindo as portas

Roberto Marinho

Fundado em 1969 e fechado desde 2012, o Hospital Santa Margarida  passou a ser da prefeitura de Volta Redonda. A novidade, uma bomba que o aQui vinha anunciando que seria detonada, agitou a cidade do aço. Não é para menos. A unidade, quando voltar a operar, o que deverá ocorrer no segundo semestre de 2018 até ser totalmente entregue no início de 2019, vai aumentar em cerca de 150 leitos a capacidade de atendimento da secretaria de Saúde, comandada por Alfredo Peixoto.   

 

Depois do leilão, coube ao prefeito Samuca Silva detalhar um pouco mais o que vai representar a novidade para Volta Redonda. “O Santa Margarida vai fazer parte do complexo hospitalar que estamos criando em torno do Hospital Munir Rafful. Será a Unidade Santa Margarida, assim como teremos a Unidade do Idoso”, disse, referindo-se ao Hospital do Idoso, que já tem data para abrir as portas. “Será na próxima sexta, 22”, disparou.

 

Em entrevista exclusiva ao aQui, Samuca revela o que a unidade voltada para os idosos vai oferecer, em termos de atendimento. “No Hospital do Idoso nós vamos colocar vários especialistas da rede de Volta Redonda. Isso será bom porque dará eficiência no atendimento, eficiência no uso dos recursos públicos, e vamos criar uma equipe especializada para sermos um ponto de referência para a cidade. Com o Santa Margarida, vamos fazer a mesma coisa”, anunciou.

 

Samuca foi além. “Nós temos nove andares (no Santa Margarida) que  vamos abrir, dentro de um plano operativo, que está sendo muito discutido. Nós vamos oferecer cirurgias e procedimentos que hoje são realizados fora de Volta Redonda. Nós não vamos aumentar o custo imediato (da rede) e a previsão é que ele possa funcionar no final de 2018 ou no início de 2019”, pontuou o prefeito.

 

Em termos de recursos, Samuca adiantou que já está desenvolvendo uma estratégia. “Estamos pedindo ao Ministério da Saúde que aumente o teto dos recursos federais para Volta Redonda. Além disso, estamos pedindo aos deputados – eu mesmo pedi – para destinar recursos de emendas parlamentares para a Saúde, porque nós já estávamos desenvolvendo esses projetos (compra do Santa Margarida e aluguel da São Camilo) para a cidade do aço”, contou.

 

Nas suas idas a Brasília, Samuca chegou a se reunir com representantes do governo para tratar dos futuros investimentos. “Fomos ao Ministério da Saúde várias vezes. Pedimos orientação e houve um planejamento. Mas, diferente do que ocorria em outros tempos, eu gosto de anunciar só quando tudo está prestes a se concretizar. Ou melhor, quando está concretizado”, comparou, mandando uma indireta ao ex-prefeito Neto.

 

“O município suportará o custeio de forma planejada. Nós não vamos fazer loucuras. Primeiro porque os dois serão hospitais de portas fechadas. Isso nos dará a capacidade de direcionar os pacientes (de Volta Redonda) para estas unidades”, acrescentou, garantindo que no Hospital do Idoso abrirá as portas oferecendo serviços de urologia e angiologia. Por enquanto, é bom que se frise.

Ainda com relação ao leilão do Hospital Santa Margarida, que acompanhou de longe, pois estava em Brasília, Samuca lembra que dos R$ 4,5 milhões parcelados, a prefeitura de Volta Redonda só terá que arcar mesmo  com R$ 1 milhão. “Os outros R$ 3,5 milhões são créditos que a prefeitura tem. O dinheiro voltará aos cofres públicos. Então o hospital (Santa Margarida) vai sair em torno de R$ 7,5 milhões”, anunciou.

Alfredo Peixoto, secretário de Saúde, que estava presente no leilão, realizado na terça, 12, lembra que o hospital tem 110 leitos de internação, 10 leitos de UTI, dois leitos de pediatria, três de UTI Neo Natal e cinco salas completas de cirurgias, além do imóvel em si. Tudo avaliada em R$ 18 milhões. “A compra foi uma oportunidade”, dispara. “Não é todo dia que aparece um hospital deste tamanho à venda, por R$ 11 milhões. Vimos a oportunidade e resolvemos comprar”, disse Alfredo, que completou: “As pessoas podem até falar: ‘Ah, mas não houve planejamento’. É verdade, neste caso não houve, o que houve foi a oportunidade. Planejamento nós temos com o Hospital do Idoso, que vamos abrir em dezembro (dia 22), antes do Natal. No Santa Margarida o planejamento começa a partir de agora que ele é da prefeitura”, diz. 

 

Alfredo está coberto de razão. É que o hospital já foi avaliado por muito mais. “Em 2008, a Comissão de Valores Imobiliários do Rio de Janeiro avaliou o Santa Margarida em R$ 32 milhões”, lembrou o arquiteto Ronaldo Alves, que foi nomeado pela Justiça como interventor do hospital.  “Eu usei esse laudo para buscar investidores e, em 2012, baixamos para R$ 28 milhões em face da situação (falimentar) ou pela intervenção judicial”, comparou.

Além de praticamente duplicar o número de leitos da rede municipal, Volta Redonda poderá passar a oferecer atendimentos de hemodiálise, já que o antigo Santa Margarida contava com 22 cadeiras para atender os pacientes de hemodiálise que hoje buscam atendimento em outras cidades. Detalhe: quando isso ocorrer, as verbas enviadas pelo Ministério da Saúde para esse tipo de atendimento passarão a ser repassadas a Volta Redonda.     

Leilão

Apesar do deságio de R$ 7,5 milhões em relação ao preço avaliado – R$ 18,5 milhões –, a prefeitura de Volta Redonda deve ter trabalho para reabrir o hospital.  A demora se deve principalmente ao estado da unidade. O local está totalmente depredado: fiação, lâmpadas, torneiras, vasos e pias dos banheiros, praticamente tudo foi destruído ou roubado. Só não roubaram a carcaça de uma velha ambulância, abandonada ao lado da entrada principal do antigo hospital. Para compensar, as 22 cadeiras de hemodiálise não foram destruídas. Poderão ser usadas. Pelo sim pelo não, o fabricante das cadeiras prometeu, segundo Alfredo Peixoto, substituí-las assim que a prefeitura decidir reabrir o setor de hemodiálise.     

 

O setor, inclusive, segundo uma fonte do aQui, deverá ocupar um dos nove andares do hospital. E outros três, segundo ela, deverão ser abertos oferecendo outras especialidades, o que tornará Volta Redonda um dos melhores municípios da região em termos de qualidade na Saúde. “A expectativa é das melhores”, ressalta Alfredo Peixoto, lembrando que Volta Redonda vai passar dos atuais 200 leitos para mais de 400 daqui a pouco tempo.

 

“Esse hospital vai desafogar totalmente a rede hospitalar da cidade”, disse Alfredo, salientando ainda que, enquanto várias cidades do Brasil estão fechando hospitais, “Volta Redonda está tentando abrir todos os que tem”, disse, incluindo o futuro Hospital do Idoso, que vai funcionar a partir do dia 22 na sede da antiga Clínica São Camilo, na Vila.   

 

O secretário de Administração de Volta Redonda, Carlos Baía, que foi quem deu o lance vencedor do leilão, que não teve outros concorrentes, ressalta ainda a compra da unidade. Do  total de R$ 11 milhões que a prefeitura de Volta Redonda pagou pelo hospital, R$ 6,5 milhões foram à vista e R$ 4,5 milhões divididos em 60 parcelas com reajuste pelo IPCA-E. 

Neto

Antes da falência total do Santa Margarida, o juiz Flávio Pimentel chegou a nomear um interventor para a direção do hospital, escolhendo o ex-secretário de Planejamento de Volta Redonda e de Barra Mansa, arquiteto Ronaldo Alves. Assim que assumiu a direção, Ronaldo chegou a afirmar que os problemas financeiros da empresa hospitalar não teriam sido causados somente pela briga entre os irmãos Clésio e Edmar, da tradicional família Matos, proprietária da unidade, mas também por perseguição do ex-prefeito Neto.

 

O interventor acusou Neto, inclusive, de atrasar o repasse de recursos federais para o hospital, desde sua primeira gestão, em 1994, e que teria deixado de encaminhar pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) para a unidade, sendo que estes representavam 80% do faturamento. Para piorar a situação, pouco antes do fechamento, a Vigilância Sanitária do Estado mandou interditar todo o setor de hemodiálise do Santa Margarida, que era referência no procedimento na região. Foi o último prego no caixão do Santa Margarida. 

 

Em 2015, vereadores de Volta Redonda instauraram uma Comissão Especial de Inquérito (CEI), presidida pela ex-vereadora América Tereza, para investigar as causas do fechamento e tentar a sua reabertura. Apesar das boas intenções, não passaram disto. A solução para o problema – que, além da perda dos leitos, trouxe um “hospital fantasma” para o meio da cidade – só veio agora, com a compra da unidade pelo governo Samuca. Que Santa Rita de Cássia os abençoe.

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