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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Publicado em 06/11/18, às 10:52

‘Abre a boquinha’

Vinicius de Oliveira

A decisão da prefeitura de Volta Redonda de aderir ao programa NutriSUS do governo Federal tem gerado polêmica entre os profissionais que atuam nas creches do município. Orientadas pela secretaria de Educação, as professoras precisam incluir na merenda escolar um suplemento alimentar (ver foto), enviado pelo Ministério da Saúde para potencializar o pleno desenvolvimento infantil, a prevenção e o controle das deficiências nutricionais.

 

Segundo as professoras, não há nada de errado com o suplemento. Elas até acham válido que as crianças, sobretudo as mais pobres, contem com o reforço na alimentação. O problema é que elas alegam ser um esforço extra ao trabalho que desenvolvem em sala. Além disso, contam que precisam de estratégias para que as crianças – cujos pais permitiram a adição do NutriSUS na comida – não vejam o suplemento sendo administrado. 

 

“Nós temos um trabalho extenso a ser feito em sala de aula para atingir os objetivos pedagógicos da SME. Isso sem direitos básicos garantidos, como tempo de planejamento e piso salarial. Ainda assim, o governo quer aumentar nossa carga de trabalho”, observou uma professora que não se identificou. “Se fosse só adicionar o suplemento no prato das crianças, seria indiferente no nosso trabalho, pois já servimos a comida. O problema é que nem todos os pais autorizam e, assim, temos que verificar nome por nome e, longe da criança, administrar o suplemento”, contou.

 

Ela vai além. Diz que as diretoras estariam afirmando que as professoras, com a ajuda de auxiliares, estariam tendo que adicionar o suplemento sem poder questionar a ordem. “Quando a gente se manifesta contra, a diretora diz que seremos obrigadas a assinar um termo de compromisso, o chamado livro preto da creche. E o nosso nome será enviado à secretaria de Educação”, confessou.

 

Outra professora chama atenção para o trabalho extra. “Se não estivermos muito atentas, pode acontecer de errarmos o prato da criança ou, até mesmo, de esquecermos de colocar o suplemento. Todos os dias precisamos verificar, nome por nome, a lista de participantes. Eu entendo que seria muito mais significativo se o NutriSUS fosse entregue aos pais e estes, por sua vez, dariam ao filho na hora e na forma que fosse conveniente”, sugeriu.

 

Segundo o Ministério da Saúde, o programa é feito em parceria com os ministérios da Educação e Desenvolvimento Social e Combate à Fome, com o objetivo de complementar a alimentação infantil com micronutrientes (vitaminas e minerais). A ação consiste na adição de um sachê (ver foto acima) contendo uma mistura de vitaminas e minerais em pó em uma das refeições oferecidas diariamente às crianças..

 

Segundo o ministério, as prefeituras optam por aderir ao programa ou não. Aderindo, a secretaria de Educação indica as creches que serão atendidas. “Todos os municípios têm a estratégia de fortificação como uma ação optativa, e podem indicar quais creches desejam desenvolver a ação. No sistema de adesão, deixamos destacadas as creches que são prioritárias para esse primeiro estágio de implantação da estratégia (municípios participantes do Brasil sem Miséria e creches com mais de 95% dos educandos na faixa etária de 06 a 48 meses)”, informou a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde.

 

Sobre esse fato, a secretaria de Comunicação da prefeitura de Volta Redonda informou que a administração do NutriSUS não é responsabilidade do professor. “O NutriSUS, que é o suplemento alimentar fornecido pelo governo Federal, através da secretaria municipal de Saúde, que é a responsável pelo aluno, autoriza ou não a diluição na alimentação da criança. Esse suplemento não é de responsabilidade do professor e sim dos profissionais (merendeiras e auxiliares de educação) que acompanham a alimentação das crianças nas Creches Municipais, apenas”, afirmou. As professoras alegam, no entanto, que há controvérsias.

 

A polêmica do NutriSUS nas creches gerou outra, mais séria e que vem preocupando até o Sindicato dos Profissionais da Educação de Volta Redonda (SEPE): a obrigação de professores de administrar remédios aos alunos que estejam sofrendo de alguma doença.

 

As mesmas professoras que trouxeram à tona a polêmica do suplemento também reclamaram da obrigação de medicarem seus alunos., mesmo quando a administração do remédio é feita a partir de um receituário médico. “Às vezes a gente não entende a receita, ou então é um medicamento que demanda muito cuidado na hora de ser administrado e qualquer erro pesará nas costas do professor”, reclamou uma professora.

 

Ela conta que viu uma colega de trabalho passar por uma situação do tipo. “O remédio que os pais mandaram era de tarja preta, com dosagem certa. A professora acabou errando e colocou remédio a mais para a criança tomar. Felizmente nada aconteceu, mas a professora procurou a direção e esta, por sua vez, não tinha como respaldá-la caso algo de ruim tivesse acontecido”, denunciou.

 

Outra professora contou um caso envolvendo a receita médica. “Minha auxiliar percebeu que a receita estava adulterada. Assim que vimos, fomos à direção, que chamou os responsáveis na escola. A mãe da criança jurou de pés juntos que não tinha rasurado a receita. Ficou parecendo que fomos nós, da escola, que cometemos o erro”, relatou. “Depois de muita insistência, a mãe mudou a versão. Disse que fora a própria pediatra quem adulterara a receita. Felizmente a diretora disse que a escola não se responsabilizaria mais por administrar medicamentos ao filho dela. E nos perguntamos ainda hoje: qual seria o objetivo dessa mãe ao adulterar uma receita médica? E se algo acontecesse ao filho dela na escola? A culpa seria nossa”, desabafou.

 

A secretaria de Educação de Volta Redonda informou que “é expressamente proibida a medicação, qualquer que seja, ministrada por profissionais da Educação nas Escolas. A secretaria explicou que só é permitida a medicação com a apresentação do receituário médico, fornecido pela família, caso não tenha outro horário para esse medicamento ser ministrado. Em casos extremos, a família é autorizada a ministrar a medicação, independente do horário”.

 

O jurídico do Sepe entende que o professor, por ser o adulto responsável pela criança no horário em que esta deve tomar o remédio pode, sim, se incumbir da função de administrar o medicamento com base em receita médica. Contudo, em nota, a direção colegiada do sindicato observou que é preciso bom senso tanto do professor quanto da direção para evitar problemas no futuro. “O ideal seria que os responsáveis pelas crianças solicitassem ao pediatra que receitasse um horário que não bata com o da escola. Se isso não for possível por conta do tipo de tratamento e, mesmo assim, o profissional sinalizar insegurança ou qualquer outro motivo que o faça entender que ele não está apto para administrar o remédio, a direção precisa ter um olhar solidário e colaborar com este professor. Nesses casos, a equipe diretiva pode assumir o papel de administrar o remédio, o que não pode é exercer qualquer tipo de assédio sobre o profissional”.

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