Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 23 de Abril de 2019
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Publicado em 15/04/19, às 09:48

“A culpa é dEle!

Os prefeitos Samuca Silva e Rodrigo Drable começaram a semana tendo que, literalmente, sujar os sapatos de lama. E sujaram. Na segunda, 8, depois de passar a madrugada de domingo, 7, de olho no leito dos rios que cortam as duas cidades, eles foram obrigados a decretar Estado de Emergência tanto em Volta Redonda quanto em Barra Mansa para amenizar os efeitos de uma tromba d’água que tinha caído na noite anterior na vizinha Rio Claro. Sorte de ambos é que, apesar de ter sido a pior chuva da história dos dois municípios, nenhuma morte foi registrada por conta do, como definiu um vereador, ‘castigo de Deus’.
O parlamentar, conhecido pelo apelido de ‘Poxa Vida’, ao ser questionado nas redes sociais por uma moradora de Barra Mansa, inconformada por não ter sido atendida pelas autoridades, não deixou por menos. Disse à eleitora que nada podia fazer. Que tudo seria obra d´Ele. “Eu não tenho culpa se Deus manda chuva. (Quando acontece) Aí a culpa é do vereador? Não aconteceu só com você, aconteceu com várias pessoas na cidade de Barra Mansa, Volta Redonda, entendeu? Então o que acontece, isso não é culpa minha, entendeu? Se Deus manda a chuva, eu não sou culpado de entrar na casa de ninguém, entendeu? É (foi) Deus que mandou, isso não é culpa minha”, pontuou ‘Poxa Vida’, com seu linguajar próprio de quem não domina o português.
O drama do verea-dor e da moradora também foi vivido por Samuca e Rodrigo a partir do fim da tarde de domingo, 7, quando os dois foram pegos de surpresa pela quantidade de chuva que caiu sobre Volta Redonda e Barra Mansa. Detalhe: volume que o ‘Clima Tempo’ errou feio. “Apenas no domingo foram cerca de 170mm de chuvas em Volta Redonda. As previsões eram que seriam apenas 70mm”, com-parou Samuca. “Essa chuva, que pegou todo mundo de surpresa, foi a maior da história de Volta Redonda”, comparou.


Samuca chegou a comparar a chuva do final de semana com a que caiu sobre Volta Redonda há 12 anos, em 2007. “Foi uma chuva forte, mas não chegou a 170 milímetros. Isso (170 mm) é muita água, é quase a previsão de abril inteiro. Para o mês todo estava previsto acho que 120 e caíram 170 em um só dia. Os rios não aguentam”, disparou o prefeito, indo além. “Na realidade, caiu uma trom-ba d’água em Rio Claro. Choveu 120mm no mesmo dia e atingiu a nossa bacia, que é formada pelo Córrego Brandão e pelo Córrego Secades (da 209). Volta Redonda já tinha parado de chover e, do nada, o córrego da Vila transbordou porque estava chovendo lá em Rio Claro. Foi algo assustador”, desabafou.
Para o prefeito de Volta Redonda, que está há cerca de dois anos no cargo, a cidade do aço cresceu “sem ordem, sem planejamento”, o que teria motivado tantos estragos em vários bairros. “O primeiro passo foi dado com o plano diretor. agora temos que achar recursos para a infraestrutura”, disse, voltando a falar da forte chuva do final de semana. “Foi algo atípico. Mas a cidade respondeu bem, mesmo com os casos de domingo a cidade se manteve na normalidade”, definiu.

Piscinão
No final da tarde de segunda, 8, ainda com os sapatos sujos de lama, Samuca Silva reuniu a sua equipe para avaliar os trabalhos realizados e traçar os próximos passos para atender todas as ocorrências registradas com o temporal, que poderia se repetir. Os secretários, por exemplo, foram orientados a relatar todos os danos para que seja montado um documento único a ser enviado aos governos Estadual e Federal, com objetivo de pedir verbas para a recuperação da cidade do aço. “Nossa meta agora é levar aos governos parceiros todas as necessidades, para que possam nos auxiliar com tudo que for possível para darmos prosseguimento aos trabalhos de reconstrução e limpeza da cidade. Para isso estamos montando um relatório detalhado de todos os danos que a chuva causou na cidade”, explicou.
Além da parte burocrática, o grupo de crise aproveitou para traçar ações para concluir a desobstrução de todas as vias interditadas, e, preferencialmente, atender as 123 famílias desalojadas (balanço até terça, 9). “Temos todas as equipes de prontidão. Vamos manter a estratégia e assim poderemos atuar de forma mais efetiva para atender todas as demandas de forma mais rápida possível”, destacou Samuca, em entrevista ao aQui.
Nela, Samuca fez questão de agradecer o empenho dos funcionários envolvidos no trabalho de limpeza e pediu que todos continuassem atentos. “Mais de 600 pessoas estão trabalhando pesado para amenizar os transtornos provocados pelas chuvas. Vamos continuar os trabalhos até que toda a cidade volte à normalidade. E confiamos no apoio dos governos Federal e Estadual para ajudar Volta Redonda nesse processo de reconstrução que teremos pela frente”, salientou.

Barragens no Brandão
Samuca foi além. Garantiu ao aQui que o estrago provocado pelas chuvas em Volta Redonda pode ser minimizado já em 2020. “Temos um projeto de construir mini-barragens (os famosos piscinões, grifo nosso) no Rio Brandão para represar a água em casos de tromba d’água em Rio Claro (município onde o rio nasce). Os cálculos do investimento necessário já estão quase prontos e vai depender do tamanho de cada um. Vai de R$ 500 mil a R$ 1 milhão”, disse, garantindo que a tromba d’água de domingo seria minimizada se o projeto das barragens tivesse sido realizado. “É um processo muito demorado. Não é só querer fazer. Temos que ver os custos, preparar o edital de concorrência, apresentar tudo ao TCE e correr atrás das verbas”, relacionou
“Mas é o projeto ideal”, aposta.
Apesar das dificuldades, Samuca mantém o otimismo. “Essas chuvas vão servir pelo menos para agilizar este processo (de construção das barragens). Vamos ver se elas já estejam funcionando antes da temporada das chuvas de 2020”, disse, aproveitando para lembrar um fato desconhecido pela maioria dos voltarredondenses, como um todo.
“A cidade cresceu de forma desordenada e, o que é incrível, cerca de 70% de nossas residências estão irregulares no cadastro da prefeitura. Mostra que o poder público (administrações passadas) não fiscalizou”, disparou.
Samuca foi além. “Se (Poder Público) não consegue fiscalizar todo mundo, não terá aquele olhar técnico para saber se tem riscos. Mas poderia ser pior”, sentenciou, aproveitando para livrar a cara do Fundo Comunitário de Volta Redonda. “O Furban trabalhou muito nesses dois anos e em parceria com a Defesa Civil, fez obras de contenção de encostas da ordem de R$ 2 milhões. Foi um trabalho árduo. Nós não tivemos nenhuma vítima, isso quer dizer que o trabalho foi efetuado. É um trabalho invisível, mas é um trabalho efetuado com atenção à população”, destacou.
Aproveitando o gancho da entrevista, Samuca abordou um assunto indigesto. O dos moradores não acatarem as determinações da Defesa Civil. “Existem áreas na cidade que a prefeitura, através da Defesa Civil, já interditou. Você cidadão que recebeu a interdição, saia da sua casa, por favor. Teremos mais dias chuvosos – o terreno vai ficar molhado. E nós precisamos que você entenda isso e saia de sua residência. Você que não recebeu a Defesa Civil, não espere ela chegar ao local, saia”, implorou Samuca. “Não vamos dar sorte ao azar”, concluiu.

Moradas do Retiro
Boa parte dos 600 homens usados pela prefeitura de Volta Redonda para minimizar os transtornos causados pelo temporal que caiu sobre a cidade do aço a partir de domingo, 7, foram deslocados es-pecificamente para uma área onde nunca os estragos foram tão grandes. Foram para o Retiro, onde houve acúmulo de água em algumas ruas.
O principal foco de alagamento, para surpresa geral, já que nunca tinha registrado uma enchente de tamanha proporção, foi a Avenida Antonio Almeida. O fato despertou a atenção da secretaria de Infraestrutura e do IPPU-VR, que enviaram equipes ao local e descobriram que a culpa coube às obras de construção de um empreendimento privado, o Moradas do Retiro, de empresários de Barra Mansa.
E o prefeito Samuca Silva promete jogar duro contra eles. “É uma obra privada, (fruto de) um cálculo errado e o particular terá que mitigar (atenuar, grifo nosso) todos os problemas que afetaram os outros particulares (moradores), inclusive ao Poder Público”, anunciou durante entrevista ao programa Fato Popular, de Betinho Albertassi.
Não satisfeito, Samuca mandou interditar a obra, que prevê a construção de centenas de apartamentos do ‘Minha Casa, Minha Vida’. “O empreendimento exige um grande volume de água, mas o armazenamento de terra não foi feito de forma correta. Ali nunca teve qualquer indício de alagamento. A prefeitura está atenta, nós embargamos a obra e, enquanto (a construtora) não mitigar todos os problemas, não vamos liberar o andamento da obra”, prometeu Samuca.

VÍtimas
O coordenador da Defesa Civil de Volta Redonda, Leandro Rezende, explicou que quatro vítimas foram socorridas pelos Bombeiros. Três, por conta de um deslizamento de terra no térreo de um comércio no bairro 249 e outra devido a um deslizamento de terra que atingiu uma residência na Rua Manchester, na Ponte Alta. “Até o momento, interditamos sete residências e um estabelecimento comercial devido a deslizamentos”, explicou.

Limpeza
A secretaria de Infraestrutura de Volta Redonda fez um bom trabalho de limpeza das ruas. Para que isso fosse possível, utilizou mais de 600 profissionais. “Estamos utilizando 40 caminhões, 8 retroes-cavadeiras, uma pá mecânica, uma escavadeira hidráulica, 2 caminhões sewer Jet (utiliza jato d’água com alta pressão) e 2 caminhões-pipa”, afirmou o titular da pasta, Toninho Oreste. Detalhe: diante da ausência da Guarda Municipal, em vários casos a própria SMI teve que controlar o trânsito, como ocorreu na Rua 33, na manhã de segunda, 8.  
A Defesa Civil, por sua vez, pede que as pessoas entrem em contado com a CAU – Central de Atendimento Único – pelos telefones: 199 (Defesa Civil) e 153 (Guarda Municipal), além dos Bombeiros.

Educação
O temporal afetou as aulas de várias escolas da rede pública e, de acordo com a secretaria de Educação, foi necessária a interdição de algumas unidades, prejudicandoo cerca de 1.300 alunos. As escolas Ayrton Senna, na Vila, Gotinhas de Amor, no São Lucas, João Haasis, no Eucaliptal, e Pará, no Retiro, tiveram as aulas suspensas. As unidades Pará e João Haasis terão que passar por reforma e limpeza, e as aulas estavam suspensas até ontem, sexta, 12.  

Esporte e Lazer
A secretaria de Esporte e Lazer informou que seis dos nove ginásios da cidade estavam com todas as suas atividades suspensas desde segunda, 8, devido à forte chuva que atingiu a cidade. Os bairros que estão com as atividades suspensas são: Santa Cruz, Retiro, Vila Rica-Tiradentes, Siderlândia, São Geraldo e Açude. O ginásio do bairro 249 está funcionando de forma parcial, apenas prestando o serviço de informação.
As aulas dos ginásios da Ilha São João e do bairro Santo Agostinho não foram suspensas, pois os locais não foram atingidos pela forte chuva. A Arena do Aterrado e a Academia de Musculação que funciona no Estádio Raulino de Oliveira estão com suas atividades acontecendo normalmente.

Rede de água  
O Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Volta Redonda está tendo que se desdobrar em um serviço emergencial para trocar parte da tubulação de água que passa pelo Córrego Secades, na 209. As colunas de sustentação da rede de água, assim como um pedaço do muro de contenção do córrego, cederam por conta das fortes chuvas. A rede abastece os bairros São Cristóvão e Morada da Granja, além de toda a região leste de Barra Mansa.
Diretor executivo, José Geraldo, o Zeca, explicou que as fortes chuvas prejudicaram muito o muro de contenção do córrego e que uma tempestade na noite de sexta, 5, foi o estopim para que as colunas caíssem. “Nós já temos um projeto em andamento para resolver de vez o problema. Mas ele não podia ser executado nesse período de chuvas e tempestades. Nossas equipes estão no local refazendo a tubulação e a previsão é que o serviço termine ainda neste sábado, 6”, informou, garantindo que, assim que o serviço for concluído, o abas-tecimento de água retornará gradativamente aos bairros afetados. “Pedimos à população da localidade que utilize a água de forma consciente, evitando desperdícios. Estamos trabalhando para resolver o problema o mais rápido possível”, disse.
Continua…

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